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Há mais bacalhau e menos dinheiro para o pôr na mesa

Há mais bacalhau e menos dinheiro para o pôr na mesa

A relação dos portugueses com o bacalhau muda de acordo com o dinheiro. Actualmente, há mais bacalhau e mais barato, mas menos folga financeira para comprar um peixe cujo quilo, no comércio tradicional, começa a vender-se acima dos dez euros.

Entre 2003 e 2008, os portugueses consumiram, em média, menos 20% de bacalhau, passando de 5,6 quilos per capita/ano para 3,6 quilos, um terço deles consumido em Dezembro. Nesse período, segundo dados da Balança Alimentar do Instituto Nacional de Estatística (INE), recentemente divulgados, os preços do bacalhau registaram aumentos até 10%.

A tendência observada foi a degradação generalizada da qualidade da dieta nacional. O INE associou a quebra de consumo do bacalhau, da carne e de lacticínios ao aumento dos preços. Desde 2008 até agora, todavia, a quebra nos preços chegou aos 25% e a procura registou apenas um aumento ligeiro, segundo disse ao JN Paulo Mónica, secretário-geral da Associação dos Industriais do Bacalhau (AIB).

Esse aumento foi de cerca de 4%, ou seja, pouco significativo e insuficiente para compensar a quebra dos anos anteriores. O declínio é bem sentido. "Vendo menos desde o ano passado e este ano conto também vender menos, só por causa da crise", referiu, ao JN, José Reis, um dos principais armazenistas do Grande Porto.

Mas a verdade é que há mais bacalhau disponível. Uma das razões é o facto de, no início deste ano, a pesca ter sido retomada em Flemish Cap, ao largo da zona económica exclusiva do Canadá, depois da Organização de Pescas do Atlântico Noroeste (NAFO) ter levantado uma moratória com 11 anos. Na zona, o total admissível de capturas ficou estabelecido em 5500 toneladas, tendo Portugal ficado com a maior quota atribuída à União Europeia (34%).

Há bacalhau, não há dinheiro

Paulo Mónica, da AIB, refere ter havido também um aumento dos totais admissíveis de capturas desde 2008, na Noruega, no arquipélago de Svalbard (território autónomo norueguês) e, recentemente, no Canadá. Estas são, segundo informações dadas ao JN pelo Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas as três zonas onde operam os navios de pesca de bacalhau portugueses.

Será, então, a degradação do poder de compra que arreda o "fiel amigo" das mesas portuguesas. "Antes não havia bacalhau e havia dinheiro, hoje há bacalhau e não há dinheiro, pelo menos em Portugal", disse ao JN Rui Costa e Sousa, um dos maiores comerciantes de bacalhau do país, proprietário de fábricas na Gafanha da Nazaré (Ílhavo) e em Tondela.

Vendeu, este ano, 20 mil toneladas do peixe preferido dos portugueses, facturou 125 milhões de euros e prevê facturar 150 milhões em 2011. Mas vende cada vez menos em Portugal, preferindo apostar no estrangeiro. "Prefiro vender menos e receber do que vender mais e não me pagarem. Daí que das 20 mil toneladas que comercializámos este ano, 80% sejam para exportação", refere o empresário que exporta praticamente para todo o mundo.

Comprou recentemente duas fábricas de transformação de bacalhau, uma na Noruega e outra no Brasil. Segundo dados da AIB, este último país é o principal destino das exportações portuguesas: absorve 45% delas, o correspondente a 7 mil toneladas de bacalhau salgado e 60 milhões de euros. França e Angola, com uma fatia de 15% cada, são os outros destinos de relevo.