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Há quem já tenha recorrido a explosivos para pescar

Há quem já tenha recorrido a explosivos para pescar

Rafael Esteves já tem 37 anos de pesca. Começou na faina aos 14 anos e ainda está longe de parar. "Como o vinho e as mulheres, a pesca é um vício", explica enquanto levanta a sua copa de tinto. Nas esplanadas de O Berbés, a zona piscatória do porto de Vigo, quase ninguém quer falar da Operação Abuelo que atacou a pesca com explosivos. Rafael é uma das poucas excepções.

"Aqui todos o fazem, como também o fazem lá em cima e lá em baixo, quem disser o contrário mente", assegura. Todos os barcos têm dias maus e quando surgem muitos dias maus seguidos há que fazer o possível para pôr comida na mesa. Mesmo que seja ilegal. Por isso, Rafael desculpa o silêncio dos mais novos que fugiram mal se aperceberam da presença de jornalistas. "Aqui todos têm muito que calar".

As detenções não o surprenderam. "Já tenho muitos anos, e, de vez quando, fazem uma coisa destas para agradar aos outros portos. Mas não vai acabar com nada. Abranda e depois volta tudo ao mesmo. É que apanha-se mais peixe e com muito menos trabalho".

Uma captura normal pode render entre 100 e 200 quilos de sardinha. Utilizando explosivos podem apanhar-se perto de duas toneladas. E há, ainda, a poupança de de combustível.

Paulo Talhadas dos Santos é investigador no Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, no Porto, e explica sucintamente o método. "Lança-se uma carga explosiva que mata ou atordoa os peixes e que limita a sua fuga pelo fundo. Estes, flutuando, ficam capturáveis com muita facilidade".

O pior é que os pescadores estão a pôr em risco a sua própria actividade. Os explosivos destroem a alimentação de muitas espécies e matam peixes juvenis que nunca se chegarão a reproduzir. "As explosões são letais para larvas e juvenis, provocando mortalidade em massa com reflexo na sustentabilidade das populações", explica o biólogo. Ou seja, no limite, uma determinada espécie marinha pode até vir a extinguir-se.

No porto de Leixões, em Matosinhos, os pescadores queixam-se dos espanhóis. Pedem mais fiscalização e penas mais duras. "Já não se vê peixe como antes. Os espanhóis, como já acabaram com a sardinha, têm vindo pescar junto à costa portuguesa", contou ao JN um pescador no café da lota. "Fala-se da sardinha, mas não é só esse peixe. As espécies desaparecem todas. Em Portugal já foi um barco apanhado, mas pouco ou nada lhe fizeram", acrescentou.

O recurso a explosivos na pesca não é tema desconhecido em Leixões. Mas está longe de ser unânime. Há quem assegure ser prática corrente, há quem diga nada saber do assunto. Francisco Cunha, de 59 anos, sentiu de perto os efeitos do método. "Eu já vi fazerem isso. Trabalhei três meses num barco desses. Até essa altura, desconhecia o método. Na primeira vez até me assustei", recordou. Jorge Santos nega. "Não vejo isso a acontecer neste país. Pode ser mais económico, mas só os espanhóis é que usam bombas", declarou.

A Guarda Civil espanhola desconfia que os explosivos cheguem até Vigo através de um barco português. Segundo conseguiram apurar, é frequente haver transbordo de explosivos ao largo da costa de Viana do Castelo. Um barco luso passará o material ilegal para o espanhol e este, em Vigo, distribui-

-o aos restantes colegas. Os espanhóis vão-se revezando nesta tarefa para dividir o risco.

A sofisticação dos métodos é tal que, para evitar os cães farejadores de explosivos que percorrem o porto de Vigo, os pescadores fundeiam aquele material ao largo do porto, marcando-o com um GPS, à semelhança do que sucede com o narcotráfico. Assim, quando vão para a faina, saem do porto limpos, apanham os explosivos, usam-nos e, depois, regressam só com o peixe.

Regressado da faina, Beningno mata a sede com uma "Estrella Galicia" gelada. Começou a frequentar O Berbés aos 12 anos, pela mão do pai. "Vens da festa? Agora vais para outra festa", dizia o progenitor. Com 36 anos de pesca nas mãos, queixa-se da falta de peixe e não tem problemas em atribuir a culpa a aquem usa explosivos. "Deviam ser todos presos, porque estão a matar todo o peixe", lamenta. Diz que nunca usou nem irá usar explosivos. Não foi assim que o pai o ensinou, até porque, como vaticinava o progenitor, "o que hoje te dá fartura, amanhã dar-te-á fome".

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