Entrevista

Helena Sacadura Cabral: "O único espartilho são os meus filhos"

Helena Sacadura Cabral: "O único espartilho são os meus filhos"

Só escreverá as memórias quando os filhos Miguel e Paulo Portas deixarem a política. Hoje, Helena Sacadura Cabral - que começou a trabalhar aos 13 anos, recebendo 25 tostões por explicação - lança o livro "As nove magníficas - O fascínio do Poder", sobre nove monarcas portuguesas, que será apresentado pela deputada do CDS-PP Teresa Caeiro.

Este livro só abarca a Monarquia?

Eu quis falar de mortas, das vivas falo no próximo livro. E também porque não tivemos poder das mulheres na República, a não ser da Maria de Lurdes Pintasilgo... mas a intenção foi escrever a história de Portugal pelo olhar de uma mulher de cada século que tivesse exercido o poder, fosse rainha ou regente.

Vai retratar outras mulheres?

Sim, mas noutra óptica. Esta é a do poder, a seguinte é a do prazer, que incluirá Natália Correia. Mulheres que ousaram contestar a sociedade em que viviam e que faziam andar o seu país (e não só em Portugal).

Florbela Espanca?

Possivelmente tratarei, mas não a olho com grande ousadia. Ela serviu-se da poesia para um grito de alma. A Natália é diferente. É uma interventora na sociedade, faz poesia de outro calibre...

Sophia de Mello Breyner?

A Sophia é das maiores poetisas de Portugal, mas teve uma vida muito simples.

Vera Lagoa?

Foi uma mulher muito curiosa e essa, acho, vou tratar. Conheci-a em Moçambique, ainda era Maria Armanda Falcão.

E Amália Rodrigues?

Também tenciono falar dela.

Qual será o critério de tratamento? Vou dividi-las por campos: as ousadas no campo moral, social, científico... E talvez inclua Eva...

Aí o problema são as fontes? Mas eu vou criar. Terei de fazer investigação, mas incluo a minha interpretação sobre as retratadas, como já fiz neste livro.

Dedica o livro à sua mãe e à sua avó, as mulheres mais poderosas que conheceu. Por que o eram?

A minha mãe tinha o poder da sedução porque era lindíssima e muito inteligente. Usava as duas de forma habilíssima. A minha avó era a melhor gestora de afectos que conheci. Teve muitos filhos, não era rica, mas queria era todos à volta dela. Eu vivi os 50 anos de casada da minha avó que é algo que nenhum neto esquece.

Qual é o fascínio do Poder?

Para mim, nenhum. Nem o poder sexual.

Nem a maternidade?

De todo. A maternidade é uma dádiva e o propósito é libertar os filhos. Aos meus, não os obrigo a telefonarem todos os dias ou a virem jantar comigo. Quero que estejam comigo porque lhes dá gozo e por me acharem uma sujeita porreira, não por obrigação.

Nunca sucumbiu a esse fascínio?

Pelo contrário, nem gosto que os meus filhos sejam políticos. O Miguel é mais poupado porque ainda não foi poder, mas espero que um dia o BE seja poder, para ver como o dr. Louçã se libertará das amarras da utopia e se lança à prática.

Está a ironizar?!

Mas considerando que é uma pessoa invulgarmente inteligente, embora dantes eu fosse mais sensível à inteligência e agora seja mais ao lado humano. Continuo a ter muito pouca paciência para gente estúpida, mas já me esforço.

Portanto, política nunca?

Não seria difícil sendo como sou e quem sou, ser uma mais--valia para um partidozito: botava palavra, não dizia asneiras nem que estou à espera do amor aos 63 anos. Fui muito solicitada para preencher quotas, mas não quis. É que se me irrita não ver mulheres em certas funções, não sei se não me irrita mais ver alguém todo ufano a mostrar as suas oito ministras. Põe-me doida de fúria! Como o caso da ministra da Defesa espanhola ter passado revista às tropas grávida! Saiu em todos os jornais! Como se fosse algo de outro mundo!

Gostaria de dirigir uma revista?

Já dirigi duas revistas de política, nem dantes nem agora sinto vocação para chefiar revistas femininas. Ter uma crónica, sim, é a forma de me exprimir.

As de Economia?

Estamos em crise e o dinheiro faz-me falta, mas não quero mais. Não quero ser a mensageira da má fortuna. A última saiu a semana passada.

Teve de esperar pelos filhos estarem criados para fazer o que quis? Bem, eu só tenho pena do que não fiz. Mesmo as asneiras voltava a fazê-las. Foram todas essas coisas que fizeram de mim o que sou hoje. Agora estou a fazer o que não pude, mas devagar e costumo dizer que só existe uma limitação ao que faço: o único espartilho que tenho são os meus filhos. Não quero que algo da minha vida lhes possa ser prejudicial.

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