Sociedade

Início do fim do império colonial começou há 50 anos

Início do fim do império colonial começou há 50 anos

Traduzir a guerra colonial em números é arriscar. Haverá três mil cadáveres no Ultramar. Cá, vivos, mais de meio milhão de ex-combatentes, cinco mil deficientes. Não há certezas. A única é que o dia 4 de Fevereiro de 1961 marcou o início do fim do império colonial português.

Hoje, todos reconhecem que a guerra não fez sentido. Na altura, há 50 anos, partiram convictos de que a razão estava do lado da metrópole. Movia-os o patriotismo em que foram educados, era para a guerra e em força, defender o território nacional, servir a pátria, dar a vida pelo país. Tugas contra turras. Sentiam-se invencíveis, e mesmo que assim não fosse, tanto fazia, não tinham alternativa, o serviço militar era obrigatório.

Cerca de 11 mil militares morreram lá, nas ex-províncias portuguesas, abatidos, fuzilados, estilhaçados. Abandonados terão sido três mil, ninguém sabe ao certo. Os outros, hoje vivos apenas 540 mil (mais cerca de 130 negros, que viverão lá, mas que a lei portuguesa estranhamente não considera), com ferimentos mais de 30 mil, regressaram convencidos de que seriam abraçados como heróis. "Andámos debaixo de fogo, arriscámos a vida, lutámos pela liberdade, fizemos o que o país político nos pedia. O que haveríamos de esperar?", pergunta, retórico, José Carvalho, 59 anos, dois de Guiné. Mas as medalhas recebidas foram só cicatrizes, visíveis nuns casos, discretas noutros, mas que lhes toldaram para sempre a vida.

Irrompe-se por um almoço semanal de ex-combatentes adentro, em Matosinhos, almoço como há tantos por esse país abaixo, e percebe-se que são os ex-combatentes a tomar conta uns dos outros, que são inclusivamente eles quem tomam conta do que restou nos lugares onde combateram. Angariam dinheiro, compram medicamentos, bens alimentares, enviam para lá e lá, na Guiné, já construíram dois poços de água. O Estado português faz de conta, ou, se não faz, disfarça muito bem.

"Os ex-militares portugueses foram abandonados. Somos órfãos de pátria", reclama José Manuel, sexagenário duriense, comissão de 28 meses cumprida na Guiné. "Quando chegámos, o mais difícil era a reintegração social. Erámos apanhados de guerra, era a expressão que se usava", diz. Arranjar emprego era complicado. Muitos perderam-se, outros converteram-se ao alcoolismo, os dados sobre ex-combatentes sem--abrigo são tão díspares como todos os números referentes à guerra colonial. Seja como for, as versões oscilam entre 100 e 300.

Estudo revela dados inéditos

Recentemente, foi publicado um estudo sobre as "Feridas de guerra: (In)justiça silenciada", coordenado pelo coronel de artilharia na reserva João Andrade da Silva. Ao JN, o investigador explicou que a surpresa do trabalho, baseado numa amostra de 3020 queixas recebidas no Ministério da Defesa, entre 1997 e 2006, foi perceber "que a maioria dos queixosos se reporta a problemas físicos e não emocionais". Se estes abrangem 29 %, os ferimentos ou traumatismos múltiplos atingem 52 %. Isto revela "o grau de ineficácia dos diagnósticos então realizados. Entre 20 % e 40 % estavam errados ou foram optimistas". Apesar disso, considera não ter "havido abandono destes militares". "A prova de que o sistema é generoso é que reconheceu a 25 % o estatuto de deficientes das Forças Armadas".

A investigação, apesar de parecer uma pedrada no charco, não é consensual. Fonte ligada às associações de ex-combatentes considera-a "demasiado fechada". E diz ter dificuldade em crer "que os problemas de stress não sejam superiores aos físicos". É também esta a teoria dos ex-militares contactados pelo JN. "As nossas feridas não têm nome. Casei sem dizer à minha mulher que estive na guerra. E nunca falei disso até há meia dúzia de anos". Confissão recorrente. Ninguém se orgulha do que fez, todos gostavam de ter um interruptor que lhes desligasse a memória. As histórias, como a metáfora da cebola, só revelam a consciência quando o gravador se desliga. São irreproduzíveis - e impossíveis de digerir. "Não há cura para isto", dizem.

Para falar bem, mal ou assim--assim, todos os militares recordam Paulo Portas, o líder do CDS--PP que fez dos ex-combatentes a sua prioridade enquanto ministro da Defesa. Muitos consideram que o complemento anual de 150 euros (entretanto reduzido pelo actual Governo) "é esmola, ofensa" e recusam-no. Outros reconhecem-lhe o esforço. Ao JN, Portas explica que a medida tinha "valor simbólico". De alguma forma, era o "Obrigado" que os ex--combatentes nunca ouviram. De resto, é ele o primeiro a considerar "injusto" o esquecimento. "É um problema cultural", afirma. "As pessoas confundem ex-combatentes com antigo regime."

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