Sociedade

Metade dos casamentos terminam com divórcio

Metade dos casamentos terminam com divórcio

O presidente da República vetou esta semana a nova Lei do Divórcio. A sociedade ficou em polvorosa. A geração que já tem idade legal para casar, opta ou por não o fazer, ou por adiar o compromisso. Mas há em Portugal quem se case e quem se divorcie ainda antes dos 30 anos.

Quase um em cada dois casamentos celebrados em Portugal resultam em divórcio. Assim ditam os números disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e referentes a 2006, ano em que se celebraram 23935 divórcios.

No resto dos 26 países da União Europeia (UE), as taxas não são mais animadoras: todos os anos há 170 mil divórcios, um total de 340 mil cidadãos comunitários divorciados. 20% são divórcios entre casais formados por pessoas de nacionalidades diferentes, sendo a legislação distinta nos vários países comunitários e não havendo muitas vezes um consenso nestas disputas.

A média da duração destas uniões é actualmente de 14 anos e meio. Para a psicóloga Ana Queiroz, "antigamente havia menos divórcios, porque havia dependência económica. Também no pós- 25 de Abril houve um 'boom' de divórcios, porque passaram a ser reconhecidos", contextualiza.

Mas são cada vez mais os que se afastam desta média e que estão casados por muito menos tempo. Alguns apenas durante uns meses. Este fenómeno é recorrente na chamada geração canguru, uma faixa etária situada entre os 25 e os 35 anos, nascidos nas décadas de 70 e 80, e que, ao contrário dos seus pais, pretendem prolongar ao máximo a estadia em casa dos progenitores e adiar a vida adulta.

Esta é aliás uma das causas do divórcio: "Há um erro educacional, o facto da adolescência ser altamente prolongada contamina todo o processo para a frente. Consequentemente, à primeira contrariedade, separam-se", explica a mesma psicóloga.

Segundo o padre Borga, o número de divórcios é " uma surpresa para a Igreja, mas um sinal da sociedade actual e uma ameaça ao núcleo estruturante de uma sociedade: a família", resume.

A facilidade com que se pode pedir o divórcio pode encerrar alguns perigos. Actualmente um divórcio simples (sem bens ou filhos) e por mútuo consentimento pode ser iniciado através da internet, num processo que demora entre quatro a 20 minutos.

Os danos colaterais do divórcio não se limitam a factores emocionais. Um terço do crédito malparado em Portugal corresponde a dívidas relacionadas com divórcios, num total de 800 milhões de euros incobráveis.

"Há um grande abismo entre o 'esta è a minha cruz' que as avós aguentavam e o 'eu não estou para aturar isto' das netas" , denuncia Ana Queiroz. O padre Borga também concorda que " há muitas pessoas que formalizam a relação e se comprometem com coisas para as quais não estão preparadas". Queiroz chama-lhe "a pressão: quem não casa até aos 30/35 tem defeito, logo, o melhor é casar rápido e estas coisas nunca costumam dar bons resultados", alerta.

A Igreja Católica tem adoptado uma nova postura: "As pessoas, por serem divorciadas, não são excomungadas. Há lugar para elas. Aliás, a religião e a fé ajudam nestes processos violentos. Os ricos dão-se ao luxo de ir aos psicólogos, os pobres vêm falar com o padre", remata, entre risos, o padre Borga.

O sofrimento da destruição conjugal é agravado socialmente: "A mulher divorciada é rejeitada, está sozinha e carente, é uma ameaça para a mulher casada. O homem divorciado é um coitado, toda a gente o convida para jantar", resume, com uma certa ironia, a psicóloga Ana Queiroz.

Para a terapeuta, a melhor "pílula anti-divórcio é a boa interpretação, porque homens e mulheres não são iguais", adverte. Caso não seja possível, o melhor é "fazer o luto e recomeçar", afirma.