Sociedade

O homem que só sabe viver fora da zona de conforto

O homem que só sabe viver fora da zona de conforto

É um dos maiores exploradores vivos e um aventureiro destemido que tem desafiado as capacidades da resistência humana nos cenários mais inóspitos e perigosos do planeta. Mike Horn, cidadão suíço nascido na África do Sul, é um exemplo de determinação e coragem.

Atravessou a nado os 6900 quilómetros do rio Amazonas apenas com ajuda de uma pequena prancha de fibra. Deu uma volta ao Mundo, sozinho, continuamente a seguir debaixo da linha do equador e sem transporte motorizado, sempre a pé, de bicicleta, de piroga ou barco à vela. Percorreu em solitário o círculo polar Árctico, novamente sem motores, num barco à vela, em esquis ou a pé ao longo de mais de 20 mil quilómetros durante mais de dois anos e com temperaturas que chegaram aos 60 graus negativos. Não contente com isso, juntou-se ao norueguês Borge Ousland, outro colosso da exploração polar recente, e juntos tornaram-se nos dois primeiros - e até hoje únicos - humanos a caminharem até ao Pólo Norte durante o inverno, em escuridão permanente, autonomia total e mais uma vez sem assistência motorizada. "O impossível só existe até se encontrar uma maneira de torná-lo possível", defende.

Mike Horn relatou parte das suas aventuras em livros bastante recomendáveis e que se destacam de toda a literatura que tem sido produzida pela nova geração de exploradores ou aventureiros. Os seus livros estendem-se numa escrita estimulante e capaz de absorver o leitor desde a primeira página mas lamentavelmente ainda não existem traduções em língua portuguesa. Uma das obras é "Latitude Zero", quase 400 páginas onde se descreve a épica odisseia da sua solitária volta ao Mundo a rastrear a linha do equador (deu uma margem de 40 quilómetros para norte e para sul). A parte da travessia da selva amazónica é particularmente empolgante: o afoito homem caminhou por 3600 quilómetros de selva virgem com um saco de 50 quilos às costas, a desbastar à catanada uma flora venenosa e cerrada e enfrentando uma fauna hostil e medonha. "A selva, sobretudo de noite, é aterrorizante", admitiu. Mike Horn chegou a ser mordido por uma cobra e ficou praticamente cego durante quatro dias. Temeu o pior. Safou-se. E seguiu avante, por vezes por pântanos apavorantes, com "ervas que cortavam como lâminas", e sempre a sobreviver de maneira autónoma, a alimentar-se de ervas, macacos, ovos de tartaruga, porcos selvagens, piranhas ou jacarés. "Latitude Zero" completou-se com a travessia de três oceanos, outras tantas selvas, duas escaladas a montanhas com mais de seis mil metros e o percorrer em bicicleta da África equatorial, com guerras e guerrilhas, onde "o animal mais perigoso é o homem". Foram 40 mil quilómetros durante 18 meses para palmilhar um círculo exato em torno do centro do planeta.

Em 2002, tentou chegar sozinho ao Pólo Norte. Depois de 36 dias de marcha, cometeu o erro de tirar as luvas de uma mão para tentar consertar um cordão danificado das botas - e sofreu imediato congelamento nos dedos. Ainda hesitou em pedir socorro. Esteve uns dias indeciso entre o pedido de evacuação ou a perda irreparável de vários dedos. Acabou por apelar por assistência e perdeu apenas a cabeça de três dedos. A expedição solitária foi abandonada - e como reagiu Mike Horn?

Apenas um mês depois de ter amputado as cabeças de três dedos, lança-se num projeto ainda mais arrojado: ser o primeiro homem a circum-navegar o círculo polar ártico sem o uso de motores. Entre agosto de 2002 e outubro de 2004, foram dois anos e três meses a progredir ao longo de mais de 20 mil quilómetros debaixo de temperaturas que chegaram aos 60 graus negativos. "Era difícil respirar, o ar queimava-me os pulmões e tinha medo que congelassem", escreveu. Não raras vezes ficava semanas a fio sem ver vivalma, nem homens nem animais, nada de nada, só uma imensidão branca, o zumbido do ventania, e ele a avançar penosamente pelo meio do "vento de neve e da escuridão que reduziam a visibilidade a zero e eliminavam todos os contrastes". Cruzou e driblou dezenas de ursos polares. Só para atravessar a Sibéria foi mais de um ano. "Tinham-me dito várias vezes que era impossível ir onde quer que fosse nesta região durante os dois primeiros meses do ano, mas foi ainda pior do que eu esperava", confessou, a dada altura. Às vezes tudo se lhe afigurava desmoralizante, como nas ocasiões em que caminhava 20 horas por dia em cima de um bloco de gelo gigante que, por causa da corrente onde flutuava, se movia na direção oposta àquela para onde Mike Horn queria ir, deixando-o quase de volta onde começou. Parte da odisseia pode ser vista no filme "Arktos - le voyage interieur" mas é com o livro " Conquérant de l'impossible" que melhor se percebe a dimensão da façanha.

Convencido por semelhantes predicados, um norueguês frequentemente apontado como o maior explorador polar vivo - Borge Ousland - telefonou a Mike Horn e convidou-o para um projecto "que desafiava todas as leis da razão": serem os primeiros a caminharem até ao Pólo Norte durante o inverno, em noite permanente, sem apoio logístico nem motorizado. A meio de Janeiro de 2006 partiram do Cabo Arkticheskiy, no extremo norte da Sibéria, onde "a paisagem fantasmagórica evoca um planeta petrificado em noite eterna". Foram mais de 1000 quilómetros em dois meses de afinco numa topografia demoníaca: placas de gelo frágil, fino e quebradiço como uma casca de ovo sobre uma profundidade de cinco mil metros de oceano árctico, insondáveis aberturas de água negra, uma paisagem sinistra assombrada pelos ursos polares. Tão depressa caminhavam, como logo a seguir rastejavam ou nadavam no oceano gracial. E tudo isto em 60 dias de negrume - a única luz era a das lanternas frontais e o sol só apareceu na recta final - e a puxar trenós com centenas de quilos de comida e equipamento. O livro "Objectif: Pôle Nord de Nuit" reúne uma notável narração desta ousadia doravante jamais repetida.

Nos tempos mais recentes, Mike Horn dedicou-se à "Pangaea Expedition", um projecto que durante quatro anos juntou centenas de jovens de todo o mundo a bordo de um veleiro com o intuito de explorar vários territórios do planeta e reflectir sobre o impacto das alterações climáticas e a preservação do meio ambiente.

Mas não tardará a meter-se noutra aventura empolgante. Na entrevista que deu ao JN, o explorador adiantou que está a preparar a circum-navegação do Mundo pelos dois pólos: atravessar a Antárctica e o Ártico sozinho e pelo meio a navegar de barco à vela. Nada de anormal para quem diz: "Não deixes que o medo seja o assassino dos teus sonhos".