Sociedade

Quando o Estado se distancia há uns homens que resolvem

Quando o Estado se distancia há uns homens que resolvem

Há quem os acuse de eleitoralismo. Certo é que, deixam de ser meros autarcas, abdicando da vida pessoal, para colmatar as necessidades da população que os elegeu. Na ausência do Estado Central, eles são os verdadeiros "Presidentes da Junta de Freguesia".

Mariano Dias conhece pessoalmente cada um dos seus fregueses. E a razão não se prende com o facto de liderar a freguesia de Santo Estevão, em Estremoz, há cinco mandatos consecutivos. Apenas com o facto de o Estado Central se ter esquecido que no Alentejo profundo existe tal aldeia, onde 90 eleitores, em vez de irem às urnas, elegem o presidente em plenário público, reconhecendo o trabalho de proximidade, que nem os subsídios inerentes ao cargo conseguem compensar.

"A população só me tem a mim como a face visível do Estado. O que poderia fazer? Dizer que voltasse mais tarde porque não estou no horário de atendimento?", questiona o autarca. Casos como o de Mariano Dias não são incomuns, bem pelo contrário (ler reportagens nas páginas seguintes). "Do ponto de vista de apoio ao cidadão, há das coisas mais incríveis que se possa imaginar. Isso é uma prática corrente da generalidade dos autarcas do país", sublinha o presidente Associação Nacional de Freguesias, Armando Vieira, à frente da Junta de Oliveirinha (Aveiro) há 25 anos.

Garante o autarca que o transporte de crianças ou de doentes, em ambulâncias adquiridas pelas juntas, é o mais habitual. "Ainda esta semana fui chamado para dirimir uma discussão num casal", adianta, frisando que "qualquer político deveria passar por um banho de humildade nas Juntas".

Segundo o sociólogo Nelson Dias, coordenador do projecto "Orçamento Participativo" em Portugal e que indica como exemplo o presidente da Câmara de Alcoutim, que dá consultas à população, o cenário "não é recente, porque sempre aconteceu".

"Talvez mais visível agora perante a retracção da Administração Central. É o Estado Local a reagir à retracção do Estado Central", explica. "As juntas não têm recursos, mas têm conhecimentos, relações e formas de resolver situações", acrescenta.

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