Paulo Barroso, Tourém

Recebe apenas 260 euros mas até de bombeiro faz

Recebe apenas 260 euros mas até de bombeiro faz

No fim de ler a carta da Caixa Geral de Aposentações, que lhe chegou pelo correio, Amélia Tecelão fica a perceber quase tanto como no princípio: "Nada". "Falava que se tinha outra reforma, não sei o quê...". Paulo sossega-a. "Não se preocupe, como a lei das reformas e dos vencimentos foi alterada, aqui dizem como se deve fazer. Se houver algum problema eu levo-a a Montalegre à minha contabilista e ela trata disso".

Numa freguesia envelhecida, com baixa escolaridade e distante da sede concelhia, como Tourém, em Montalegre, do presidente da Junta pode esperar-se tudo e mais alguma coisa. E se, com cerca de 20 anos, quando deixou Lisboa e a empresa no ramo da cosmética onde trabalhava, para manter o negócio do pai na aldeia, pouco se imaginaria naquele papel, hoje Paulo Barroso já se habituou.

Aos 45 anos, o autarca não tem mãos a medir diariamente. Esta semana acorreu aos gritos aflitos de uma octogenária que, além de cuidar do marido acamado, tem a seu cargo um filho com problemas de epilepsia. Nessa manhã, devido a um ataque epiléptico, o filho da idosa caiu da cama. Após chamar a ambulância, Paulo tentou ajudar no que podia.

"Coitadinha, no dia seguinte veio agradecer a ajuda e pedir se a levava a Chaves ou, pelo menos, se eu podia passar no hospital para ver como estava o filho", conta o autarca, que até de bombeiro tem de fazer. "Há tempos incendiou-se uma chaminé. Na aldeia há sapadores florestais, mas foram chamar-me", lembra.

No entanto, o mais recorrente é aviar as receitas médicas. "Devo ser o melhor cliente da Farmácia Barroso", brinca o autarca, a quem cabe também a tarefa de levantar reformas. "Quando é nos meses com o dobro do valor, vejo-me aflito", diz. "Aflito, mas satisfeito".

"É muito gratificante. É para isso que cá estamos e é com todo o empenho que o faço, não só por ser presidente de Junta, mas por ser esta a minha maneira de ser", explica. De resto, só o amor à terra e a quem ali vive pode servir de alento. "Os 260 euros que recebo não chegam para a despesa", garante.