Sociedade

Rede Anti-Pobreza considera "pobres" os apoios aos mais carenciados

Rede Anti-Pobreza considera "pobres" os apoios aos mais carenciados

O presidente da Rede Anti-Pobreza considerou, esta terça-feira, "muito pobres" as medidas de apoio aos mais carenciados, como as cantinas sociais, defendendo que a solução devia passar por atacar as causas que geram a exclusão social.

"As respostas que estão a ser dadas pelo Governo, como as cantinas e a emergência social, são muito pobres", disse o padre Jardim Moreira à margem do Seminário "O impacto da austeridade na pobreza", organizado pelo EAPN.

Apesar de considerar que as cantinas sociais são uma "ajuda essencial" para alimentar quem tem fome, Jardim Moreira disse que é preciso "atacar as causas" que geram a pobreza e a exclusão social.

"Aí, ninguém quer mexer, temos falado com estruturas governamentais e não conseguimos fazer com que isto seja assumido ou por falta de dinheiro ou por falta de visão, não sei".

O presidente da EAPN lamentou que não tenha havido, por parte dos sucessivos governos, "a vontade política de se fazer um plano nacional que atinja as causas que geram a pobreza e colocam as pessoas numa situação de desumanidade e incapacidade".

Manifestou também uma grande preocupação com a pobreza infantil, que atinge 24% das crianças em Portugal.

"Preocupa-me bastante que os responsáveis políticos não tenham uma noção mais lúcida de perceber que somos um dos países europeus com maior índice de crianças pobres", frisou.

Presente no seminário, Amélia Bastos, do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) afirmou que "a pobreza atinge proporcionalmente mais as crianças e jovens do que os adultos", sendo os seus efeitos nestas camadas "mais duradouros, reproduzindo-se nas gerações subsequentes".

Também os riscos de privação e de carência, em termos de condições de vida, são mais elevados nas crianças, e tem uma evolução mais desfavorável, assim como o tempo de duração da pobreza, acrescentou.

Segundo Amélia Bastos, a existência de crianças num agregado familiar acresce em cerca de cinco pontos percentuais o risco de pobreza na família.

O risco de pobreza nas crianças em Portugal atinge os 22,5%, enquanto na União Europeia, os 20,5%.

"Existem políticas sociais que pretenderam colmatar os efeitos deste problema e que, em temos globais, permitiram uma redução do risco de pobreza entre 25 a 30%. Mas se atentarmos apenas nas transferências sociais das famílias e crianças o seu impacto na redução da pobreza infantil cifra-se apenas entre um e dois pontos percentuais", adiantou.

O padre Jardim Moreira alertou ainda para a existência de 2,6 milhões de pobres em Portugal.

"Estamos a empobrecer de uma forma muito rápida, muito dura e muito desumana. Eu penso que este regime em termos éticos é um regime imoral, porque não tem em conta o bem das pessoas, mas apenas o pagamento de uma dívida a qualquer preço", disse o responsável.

"A dívida tem de ser paga, mas não destrua uma parte significativa da sociedade", frisou.

Também presente no seminário, Constantino Sakellarides, do Observatório Português dos Sistemas de Saúde, afirmou que o desemprego e o endividamento afetam a saúde mental das populações.

Para combater esta situação são necessárias medidas como mais proteção social, políticas ativas de emprego, apoio familiar, respostas ao endividamento e políticas de combate ao ao alcoolismo.

Citando um estudo recente, Sakellaridres afirmou que 22,5% das pessoas em Portugal estão a cortar nas despesas na área da saúde.

Por outro lado, os hospitais, face a orçamentos mais pequenos, vão deferindo as respostas necessárias.

Constantino Sakellaridres disse ainda que os portugueses são os que têm menor número de anos saudáveis após os 65 anos.

"A população dos países nórdicos tem aos 65 anos uma esperança de vida saudável de cerca de 14/15 anos, os irlandeses 10 anos, os espanhóis oito, os gregos seis e os portugueses têm cinco anos", elucidou.