Justiça

Suspeito de sabotagem no Citius passou de segurança a especialista da PJ em dois anos

Suspeito de sabotagem no Citius passou de segurança a especialista da PJ em dois anos

Hugo Tavares somou vários falhanços na sua ascensão de segurança da PJ até diretor no Instituto da Justiça. Um desses fracassos constava no seu currículo como um sucesso.

Passou de segurança a especialista superior da PJ em dois anos e subiu ainda mais alto invocando, no seu currículo, a chefia do projeto de instalação do Citius num departamento do Ministério Público (MP) que nunca usou tal sistema informático.

São apenas dois pontos da atípica e meteórica carreira de Hugo Tavares, o licenciado em Ciência Política, de 38 anos, que acaba se der afastado da direção do Departamento de Arquitetura de Sistemas, do Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos da Justiça (IGFEJ), depois de apontado como responsável pelo "crash" do Citius, juntamente com Paulo Queirós.

Hugo Tavares regressou na quinta-feira à Polícia Judiciária (PJ), a sua porta de entrada no sistema de justiça e onde, já antes do caso do Citius, era visto como uma "personagem controversa". A controvérsia, conta um elemento da PJ, prende-se com a sua rápida ascensão na Carreira de Apoio à Investigação Criminal.

Foi a 2 de março de 2000 que Hugo Tavares entrou na PJ, como segurança. Um mês depois, era admitido num concurso para cem agentes estagiários, mas, em novembro do ano seguinte, seria excluído desse curso, por ter faltado à "prova de conhecimentos". Talvez soubesse já que, 20 dias depois, o então diretor-adjunto da PJ, Carlos Gago, o nomearia, em comissão de serviço extraordinária, especialista superior estagiário. Um cargo para o qual seria nomeado, de forma definitiva, em janeiro de 2003.

Naqueles tempos, as requalificações dos funcionários da função pública eram comuns, mas nenhuma das fontes da PJ admitiu como normal o enorme salto de Hugo Tavares. Em menos de dois anos, pulou sobre quatro categorias da sua carreira, da mais baixa para a mais alta, e chegou a um cargo que exigia, "pelo menos, sete anos de serviço", segundo o Decreto-Lei 275-A/2000.

A escalada estava no início. Em 2008, Tavares foi nomeado elemento de ligação da PJ no Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa, onde estabeleceu uma boa relação com a diretora, Maria José Morgado, e acumulou com outra função de relevo: "Elemento do Grupo de Chefia e Acompanhamento do Projeto Citius/Habilus no DIAP de Lisboa".

Esta nomeação foi incluída na nota curricular de Tavares publicada no "Diário da República" de 14 de maio de 2012, para justificar a nomeação para um cargo mais alto - coordenador do Gabinete de Inovação Organizacional de Sistemas de Informação, do Instituto das Tecnologias de Informação da Justiça (ITIJ) -, mas esconde um fracasso: o projeto de instalação do Citius no DIAP de Lisboa nunca foi concretizado.

Como coordenador do ITIJ - cargo a que chegara em 2010, em regime de substituição -, Hugo Tavares foi ainda o gestor de outro projeto falhado, a ferramenta informática AGIC (Aplicação de Gestão do Inquérito-Crime), adjudicada à Accenture, por 1,1 milhões de euros, e deitada ao lixo.

Nada disso impediria Hugo Tavares de vir a ser nomeado diretor do Departamento de Arquitetura de Sistemas, em dezembro de 2012, quando o IGFEJ substituiu o ITIJ, e de assumir responsabilidades na preparação de uma nova versão do Citius e na migração de 3,5 milhões de processos para as novas comarcas do mapa judiciário. O fracasso da operação atingiu a credibilidade do Ministério da Justiça e Tavares parece ter sido abandonado pela sorte.