Sociedade

"Tratar das hortas é melhor que ficar a ver televisão"

"Tratar das hortas é melhor que ficar a ver televisão"

Os terrenos anexos à Linha do Vale do Vouga, em S. João da Madeira, estão a transformar-se numa manta retalhada de diferentes texturas e cores, em socalcos improvisados que terminam junto aos carris do comboio.

São pequenas hortas, esmeradamente cuidadas, que ganham terreno ao silvado denso e se tornaram numa verdadeira paixão para alguns dos moradores de Fundo de Vila, uma das zonas mais urbanas de S. João da Madeira.

Plantar e colher couves, tomates, nabos, feijão e ervilhas, numa zona onde o betão impera, tornou-se no passatempo predilecto para um grupo restrito de moradores - cerca de meia dúzia. "Tratar das hortas é muito melhor do que ficar a dormir ou ver televisão toda a tarde", refere Manuel Nunes, de 65 anos, um dos esmerados "proprietários" de uma parcela de terreno.

Longe dos tempos de meninice, em que pastava o gado nos montes de Braga, sua terra natal, este reformado reatou a sua relação próxima com a terra. "É magnifico viver numa cidade e poder cuidar de um pouco de terreno. Até faz bem à saúde e ganhamos uma paixão que é difícil explicar" acrescenta, Manuel Nunes, que é, por vezes, acompanhado pelo neto, de nove anos, nas lides do campo. "É fixe andar a arrancar as batatas com o meu avô", confirma Guilherme Ribeiro.

"Parece que temos paixão pelo campinho", diz António Neves, de 75 anos, outro "lavrador" da Linha do Vouga. Este antigo coveiro de profissão transformou cerca de 100 metros quadrados de terreno estéril num espaço fértil onde brotam agora várias espécies de culturas.

Mas não chega estar sentado no pequeno banco improvisado a contemplar as plantas. O sucesso das colheitas está sempre pendente dos cuidados que são dedicados. "Se não andar sempre de volta do terreno isto fica outra vez cheio de silvas e não dá nada", afirma.

A fertilização da horta de António Neves é feita com o excremento dos cavalos. "Trago sacos disto para fortalecer a terra" explica. E com tanta dedicação, as couves, as batatas e outros cultivos sazonais vão brotando da terra. "Não fico com tudo para mim, porque gosto de dar as pessoas as coisas que cultivo. Só não gosto que venham ao terreno sem a minha autorização", concluiu.

As hortas tornaram-se vistosas e são alvo de cobiça. A Câmara decidiu dar oportunidade a outros moradores e impor regras na ocupação dos espaços. Mas esbarrou com um facto inesperado: há mais de 50 interessados. A autarquia vai ter de reequacionar a iniciativa.

ver mais vídeos