Sociedade

Um aldeia destruída pela água

Um aldeia destruída pela água

Há 50 anos, chuvas torrenciais provocaram o rebentamento do dique de uma barragem no Lago de Sanábria, em Espanha. Sem controlo, as águas engoliram a aldeia de Ribadelago. A catástrofe resultou na morte de 144 habitantes, dezenas de feridos e uma população quase inteira de desalojados.

 

As lágrimas ainda assomam aos olhos de Filipe San Róman quando revive a tragédia ocorrida há 50 anos. No fatídico dia 9 de Janeiro de 1959 uma forte enxurrada engrossou o caudal das águas do rio Tera, um afluente do Douro, e rebentou o dique da Barragem Hidroeléctrica de Moncabril, engolindo quase por completo a aldeia de Ribadelago, aninhada junto ao grande Lago de Sanábria, a 14 quilómetros da cidade de Puebla de Sanábria.

Parte da localidade ficou submersa. E também divida em duas, pois a impetuosidade das águas arrastou a ponte que fazia a ligação entre as margens. Os prejuízos materiais foram incalculáveis, mas as perdas humanas tiveram um saldo dos mais negros da história das catástrofes naturais no país vizinho: 144 mortos, famílias inteiras destroçadas, pessoas desaparecidas e dezenas de feridos.

Mãe levada pelas águas

Filipe San Róman tinha, então, 13 meses. Foi um dos desalojados que o mundo conheceu pelos jornais, que à época fizeram a cobertura da catástrofe, e que lhe tiraram incontáveis fotografias, a ele e aos outros rostos da tristeza dos que sobreviveram. O fatídico acontecimento tem um resultado pesado na sua vida: a morte da mãe e dos avós, levados pelas águas.

Ele só teve melhor sorte porque o pai, cego, conseguiu levá-lo para o telhado, com a ajuda da mãe, que já não conseguiu salvar-se. "A minha mãe não conseguiu subir. Era uma senhora muito encorpada, foi puxada pela água. Todas as casas desta zona, que agora são de construção recente, ficaram submersas", conta Filipe San Rómam.

É difícil não chorar

Desses dias não conservou qualquer memória. A cabeça ou o coração salvaguardaram-se apagando todos os registos. Ficou a saudade dos que perdeu, a falta que lhe fizeram na vida.

O que sabe recolheu das fotos dos dias que se seguiram ao acidente - ao local acorreram jornalistas de toda a Europa, incluindo uma equipa do JN -, que juntou escrupulosamente nestas cinco décadas, dos relatos do pai e do outro irmão, Jesus San Róman, 60 anos, que só não sentiu a ira do rio porque nessa noite se encontrava em Zamora.

A população de Ribadelago não esquece a amarga ocorrência. Alguns esquivam-se à conversa, porque por alturas do aniversário dos 50 anos da desgraça, os fantasmas regressam e trazem calafrios aos que sentiram na pele a dor daquela noite e toda a agitação dos dias que se seguiram a viver no caos da aldeia destruída.

Conta-se que povo era alegre e jovial, mas a tristeza apoderou-se dos que ficaram. "É impossível esquecer, mas não quero falar disso", respondeu um octogenário ao JN, fugindo a memórias dolorosas.

As crianças que sobreviveram cresceram com as histórias que se contaram e recontaram, com as lágrimas que se derramaram. A tragédia deixou tantas marcas que ainda hoje é recordada, do lado de cá da fronteira, em Bragança, por aqueles que ouviram os relatos, como Alice Bártolo, que não esqueceu as narrações que iam chegando.

A desgraça deixou marcas em todo um povo, houve transformações no espaço físico, do processo de reconstrução nasceu uma aldeia nova, com amarguras velhas. Seguiu-se adiante, mas com muito pesar. "São anos atrás de anos recordando esses momentos, é doloroso, quase todos os sobreviventes perderam alguém, é difícil não chorar ao ver as fotografias", lamenta Jesus San Rómam.

Na passada quinta-feira, boa parte da população, mesmo a que vive em outras regiões de Espanha, acorreu à localidade para participar numa missa que teve lugar na noite seguinte, em memória dos mortos. Estão a preparar uma exposição com fotografias, reportagens de recortes de jornais da época, e um espectáculo de luz que vai realizar-se no meio do lago.