O Jogo ao Vivo

Ana Paula Vieira

"Jamais conseguiremos ser os pais que éramos"

"Jamais conseguiremos ser os pais que éramos"

"Privei o meu filho de muitas saídas à noite. Não o deixei tirar a carta de mota, porque dizia que o amava demasiado para permitir que ele pusesse a sua vida em risco. E, de facto, nada disto adiantou."

 Ana Paula Vieira, de 44 anos, viu o filho morrer-lhe nos braços há dois anos e sete meses, asfixiado no próprio vómito. Uma morte com tanto de violento como de incompreensível para um jovem com 18 anos, cumpridos na semana anterior.

"É uma morte que fica por explicar", partilha esta mãe que, volvidos mais de dois anos, aceita a inevitabilidade desta morte trágica, depois de se ter debatido com um enorme sentimento de culpa. Culpa por o filho ter comido duas sandes nessa noite e não um jantar consistente como tinha pedido. Culpa por não terem continuado a jogar às cartas até mais tarde naquela noite. Culpa infundada antes de aceitar que "nós não podemos nada."

Esta fatalidade fê-la reequacionar o seu papel de mãe, mudou-lhe a forma de estar na vida e obrigou-a a focar-se mais no presente do que no futuro, que agora olha como sendo sempre incerto. "Tenho que tentar viver cada dia, porque também tenho uma filha que perdeu o irmão e perdeu os pais que tinha. Jamais conseguiremos ser os pais que éramos".

No dia a seguir ao funeral do filho, Ana Paula fez questão de desfazer o quarto e de entregar todos os pertences de Igor a uma instituição, na esperança de apagar o espaço vazio que tinha ficado em casa. "Tive aquela atitude precipitada na hora da raiva, da revolta, quis fazer com que tudo desaparecesse".

Ao espaço vazio, à ausência e à saudade, juntou-se a dificuldade de comunicar e partilhar sentimentos no núcleo familiar. Ana Paula sentia necessidade de falar sobre Igor, o marido não suportava abordar o assunto e a filha, agora com 16 anos, também não se manifestava muito. "Às tantas, éramos três ilhas lá em casa, cada um fechado na sua dor. Não havia uma partilha da dor".

Todos tiveram acompanhamento psicológico, mas foi a partilha com outros pais de luto que evitou que se criasse um abismo entre o casal e que a tem ajudado a atingir a serenidade e a convivência com as memórias do filho. Olhando para trás, Ana Paula sente-se grata pelos 18 anos de vida com o filho e por ter assistido à sua morte. "Ele partiu nos meus braços, só assim é que acredito que não houve mais nada para além daquilo", afirma conformada com a ausência de uma explicação lógica.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG