Sociedade

João Sousa só se afoita a "arrascanhar o nome"

João Sousa só se afoita a "arrascanhar o nome"

Pouco passava das três da tarde de ontem, terça-feira, quando o carteiro lhe parou à porta. João Manuel Sousa estava sentado num banco, à conversa com um amigo. Levantou-se, aproximou-se da viatura e recolheu as cartas. Alguém há-de ver o que é. Não ele.

Nem a mulher, Maria Isabel, de 84 anos. "Sabe, é o mal de a gente não saber ler", queixa-se o agricultor reformado, enfiado em três mangas de roupa, como a querer enfrentar a ameaça de Outono de que o tempo deu ontem sinais.

O céu cinzento deitou umas pingas cá para baixo e João recolheu-se delas num coberto onde há um banco bem azado para nele abancar quem gosta de contar histórias. E João gosta.

Pois contou-nos ele que quando era "canalha" ainda foi "à escola da mãe do doutor Simão, que era professora". Foi só "uns dois mesitos". O bastante para começar a "encaminhar as letras". Só que depois o pai precisou que ele andasse na lavoura com "uma junta de bois". E não voltou à escola.

"Ainda hoje conheço as letras e o algarismo, mas não sei o seu valor", entristece-se. A única coisa a que ainda se afoita é a "arrascanhar o nome", quando é preciso assinar qualquer papel. A mulher, idem, aspas.

Bem se arrepende hoje de não ter tido vontade de aprender quando andou na tropa, em Lisboa. E como não calhou, assim viveu até hoje, "sem letras". E por falta delas se lhe dificultou a vida quando tentou uma incursão no estrangeiro, vai para 60 anos. Foi pai de cinco filhos e a todos permitiu ter instrução, pelo menos a básica, mas que por ser pouca não impediu, a todos eles, de fazer vida lá fora.

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