Sociedade

Mar de gente no funeral de bombeira

Mar de gente no funeral de bombeira

"Foi para salvar. Morreu". Era este sentimento de consternação que dominava as muitas centenas de pessoas que, este sábado à tarde, participaram no funeral de Ana Rita Pereira, a bombeira de 24 anos dos Voluntários de Alcabideche, Cascais, que morreu quinta-feira no combate a um fogo na serra do Caramulo, Tondela, e que deixa uma filha de quatro anos.

Bombeiros de várias corporações da região de Lisboa (Sintra, Cascais, Estoril, Amadora, Colares, Montelavar e Póvoa de Santo Adrião, entre outros) juntaram-se numa formatura que acompanhou, a pé, ao som da fanfarra, o percurso de cerca de 30 minutos entre o quartel e o cemitério. E que foi acompanhado por uma enorme moldura humana, em que se integrava o ministro da Administração Interna e o presidente da Câmara de Cascais.

À passagem pela porta principal do quartel, depois de várias salvas de palmas, o cortejo parou e a sirene tocou. O pai, que a levou para os bombeiros, saiu do carro e, de capacete nas mãos, não conseguiu suster as lágrimas. Ali, até a sirene chorou.

O corpo de Ana Rita Pereira, de 24 anos, auxiliar de acção médica no serviço de medicina do Hospital de Cascais, esteve desde sexta-feira à tarde em câmara ardente no quartel dos Bombeiros de Alcabideche onde, este sábado, se realizou uma missa de corpo presente.

O cortejo fúnebre, a pé, começou com uma forte salva de palmas com destino ao cemitério de Alcabideche e prolongou-se por cerca de 30 minutos, ao som de uma fanfarra, e com várias manifestações de pesar pelo caminho.

No final da cerimónia, Jaime Marta Soares, presidente da Liga de Bombeiros Portugueses (LPB), lamentou a morte de mais um bombeiro (este ano, esta foi a terceira morte no combate a fogos florestais), num ano que está a ser "muito difícil e muito complicado".

"Infelizmente o homem muitas vezes não é capaz de superar as forças da natureza e vai perecendo assim, de forma complicada e dramática. Mas são os ossos do ofício dos bombeiros que estão envolvidos nestas situações", disse, aos jornalistas, refutando as críticas ontem ouvidas de falta de formação dos bombeiros voluntários para combaterem fogos florestais.

"isso é pura mentira e especulação", disse, garantindo que "hoje os bombeiros portugueses são dos melhores bombeiros do mundo no combate aos fogos florestais" e atribuindo os acidentes que se têm verificado este ano "às contingências do clima, às taxas altíssimas de calor, baixa humidade mas, acima de tudo, a uma floresta desordenada e abandonada".

O presidente da Liga volta a apontar o dedo ao Ministério da Agricultura e ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas "que têm obrigação de definir estratégias para que a floresta portuguesa seja diferente" e ao Estado por não dar o exemplo e ter a sua floresta "maltratada". "Ai sim há desleixo e negligência", disse.

O presidente da Liga garante que não irá faltar apoio à família desta bombeira, que deixa uma filha de quatro anos. Enquanto o seguro da Câmara Municipal de Cascais não for acionado, o responsável garante que o Fundo de Protecção Social dos Bombeiros suportará as despesas necessárias. "Não deixaremos um minuto sequer as pessoas ficarem em dificuldades", disse.