José Carvalho, 59 anos

"Os homens tinham de beber vinho e de ir para a guerra"

"Os homens tinham de beber vinho e de ir para a guerra"

Ele sabia ao que ia - e ia sem medo. Ia para o que diziam ser o pior território da guerra, Guiné--Conacri. "Nós considerávamos que homem que é homem tinha de beber vinho e de ir para a guerra. Era isto o homem naquela altura", diz, a rir, José Carvalho, na antecâmara dos 60 anos, sobre a altura dos seus 20 anos.

Sabia ao que ia, mas não sabia que a 4 de Janeiro de 1972, dia em que embarcou, a guerra estava já próxima do fim, e que, mesmo assim, o pior ainda estaria para vir.

"Depois de oito meses sem ouvir um tiro, caímos numa emboscada, em Gadamael. Uma mortandade. O meu comandante morreu logo ali, à minha frente. Quando percebi que estava sozinho com ele, tive de tomar uma decisão, ou morria ali ou tinha de dar a retirada. Há quem chame fugir, sim, fugi". Nem sempre. "Num dos bombardeamentos, vi um colega cair, vesti o impermeável e fui buscá-lo, levá-lo para a enfermaria a correr. Quando lá cheguei, reparei que tinha os miolos dele a escorrer pelas minhas costas. Arrisquei a vida por um cadáver".

O senhor Carvalho tem um brilho no olhar que nunca se apaga, de uma expressividade que se estende aos gestos, sempre a oscilar entre o sorriso e a lágrima. "Não me sinto aterrorizado. Mas quando vejo um filme ou fotografias ou textos de colegas, acontece a minha mulher encontrar-me a chorar sozinho". Chora. E conta um episódio que ilustra o stress de que padece. "Fui ao cinema ver "O resgate do soldado Ryan" e o cinema parou. Fiquei de tal maneira envolvido emocionalmente que já não sabia onde estava, saltei a pedir ajuda dos pára-quedistas, aos berros, e acabei por desmaiar lá no meio". Às vezes, há momentos assim, resigna-se, mas sempre de sorriso aberto no rosto.

Ficou demasiado tempo mudo. "Não valia a pena falar, ninguém compreendia". Hoje, sente que é uma caixa de Pandora, mas ao contrário, gosta de exorcizar os seus fantasmas. "Claro que a guerra não valeu a pena", reconhece, e por isso mesmo não queria morrer sem voltar à Guiné. Voltou no ano passado. "Turras e tugas afinal são amigos, não há azedume."