Sociedade

Portugueses não estão infelizes, mas insatisfeitos", diz sociólogo

Portugueses não estão infelizes, mas insatisfeitos", diz sociólogo

O sociólogo Rui Brites, autor de um estudo sobre a felicidade, defende que os portugueses não estão infelizes, mas muito insatisfeitos, e que as manifestações de sábado foram um sinal do sentimento de "injustiça" em relação às medidas de austeridade.

Segundo o especialista, as medidas de austeridade "quebraram a confiança [dos portugueses] no Governo.

"As pessoas não estão infelizes, estão muito insatisfeitas e manifestaram-se", numa dimensão inesperada, contrariando as afirmações de governantes no sentido de que os portugueses compreendiam o esforço pedido, afirmou o especialista.

Para Rui Brites, que participa esta quarta-feira num debate promovido pela Ordem dos Médicos, os portugueses compreendem que a situação é difícil e há necessidade de sacrifícios, de fazer ajustamentos, e ouviam-se algumas queixas, mas não se manifestavam.

"O discurso de sexta-feira de Passos Coelho veio mudar tudo, porque o que apareceu associado ao ajustamento foi uma manifesta injustiça", frisou o autor de um estudo sobre a felicidade dos portugueses.

"Quebrou-se o elo de confiança com este Governo e esta situação atual, em termos governativos, está ferida de morte porque não há mais confiança", realçou.

O especialista explicou que a felicidade é diferente da satisfação, que é um estado passageiro.

Na atual situação de crise económica, com a sucessão de medidas que estão a reduzir o rendimento dos cidadãos, a aumentar os impostos e a fazer subir o desemprego, "as pessoas manifestaram-se porque estão insatisfeitas, não porque estão infelizes".

Aliás, explicou, "quem está infeliz não faz nada, fica parado à espera que as coisas mudem. Quem quer ser feliz faz com que as coisas mudem".

Para Rui Brites, "a importância da felicidade em momentos de crise aparece como paliativo para as dificuldades do dia a dia. Se a economia já não resolve os problemas pode ser que haja outra forma mais simples de os relativizar".

Nos estudos sociólogos que já efetuou sobre a felicidade dos portugueses, Rui Brites chegou a conclusões que considera "um bocado contraditórias", se analisados fatores indiretos como a saúde, o rendimento ou a educação.

Apesar de outros países europeus apresentarem melhores condições de vida, "os portugueses e espanhóis são dos povos mais felizes da Europa. Dizem-se mais felizes do que as condições objectivas permitiriam dizer", justificou Rui Brites.

Se "com condições básicas más dizem-se mais felizes, é porque são mesmo mais felizes", resumiu.

A Ordem dos Médicos organiza hoje o debate "Mede-se a felicidade?", que conta com a participação de vários especialistas sobre este assunto.

As Nações Unidas escolheram o dia 20 de março para assinalar o Dia Mundial da Felicidade.

Nos últimos anos têm surgido vários trabalhos sobre a felicidade e a forma de a medir e foi proposta a criação de uma alternativa ao Produto Interno Bruto (PIB), a Felicidade Interna Bruta (FIB).

Em Portugal, foi proposta a utilização da FIB, uma forma de medir o bem estar subjetivo da população, e chegou mesmo a ser apresentada uma petição na Assembleia da República tentando envolver o Instituto Nacional de Estatísticas (INE) e o Banco de Portugal na obtenção de indicadores.

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