Mali

Portugueses regressaram do Mali divididos entre a tranquilidade e o alívio

Portugueses regressaram do Mali divididos entre a tranquilidade e o alívio

À chegada a Lisboa, esta quarta-feira de manhã, as emoções dos portugueses que testemunharam o golpe de Estado no Mali dividiam-se entre a tranquilidade de quem nunca se sentiu em perigo e o alívio de quem chegou a temer o pior.

Carlos Ferreira aparentava tranquilidade e descontração na chegada ao aeroporto de Lisboa. Assumindo-se como porta-voz dos 14 portugueses que estavam no Mali para uma atividade de todo-o-terreno, caminhava pela zona de chegadas do aeroporto apenas na companhia de outros quatro elementos do grupo. Os restantes apanharam um voo de ligação para o Porto.

"[O cenário que deixámos para trás não era] nada de especial. O primeiro dia realmente foi complicado, ouvimos muitos tiros, mas pensámos que foi só de aviso. Nada de confrontos. Agora estava tudo a voltar à normalidade, o caos de sempre de Bamako, mas trataram-nos muito bem", contou.

Em declarações aos jornalistas, revelou que os familiares deste grupo de portugueses estavam mais preocupados com a situação do que eles próprios. "Nós éramos 14, alguns foram agora para o Porto. Mesmo o próprio militar teve o cuidado de nos dizer 'tenham calma, estamos aqui só para fazer uma pequena revista, está tudo bem, é rotina', praticamente não revistou o nosso táxi e seguimos viagem tranquilamente".

"Nunca nos sentimos minimamente inseguros. Temos pessoas desde os oito aos 64 anos e tivemos um grupo muito tranquilo, sempre bem dispostos", assegurou.

De acordo com o relato, a situação mais preocupante foi vivida no aeroporto, num dia em que alguns dos elementos do grupo tentaram partir em direção a Bissau e em que foram "apanhados de surpresa" com a presença de militares e tiveram momentos de maior tensão.

"Não tivemos qualquer tipo de receio, tirando a situação do aeroporto, em que nos deram 10 minutos para sair. Estavam muito tensos, um acendia a televisão, outro apagava, por causa das comunicações dos militares. Um até parece que chegou a apontar a arma ao outro por causa disso", relatou.

Segundo Carlos Ferreira, os militares deram-lhes depois ordem para abandonar o aeroporto em 10 minutos e os dois membros do grupo que foram impedidos de seguir viagem acabaram por ser recolhidos na estrada pelos companheiros, que foram ao seu encontro buscá-los.

"Resgatámo-los, um militar mandou parar as carrinhas, perguntou para onde íamos, pediu-nos a identificação, mas nenhum stress e regressámos onde estávamos hospedados", acrescentou Carlos Ferreira.

"Uma semana trancados em casa"

Já Fará Laley-Juva, que chegou a Lisboa na companhia dos filhos pequenos, correu em direção ao pai assim que o viu, aliviada pela sua presença. "Só de saber que vou voltar a ver a família. A gente pensa sempre: 'se calhar não vamos voltar a vê-los'. Era muito complicado", desabafou.

Fara Laley-Juva reside no Mali com o marido há cerca de cinco anos. Até 22 de março, dia do golpe de Estado, nunca tinha vivido qualquer tipo de problema no país. Enfrentar os dias que se seguiram, com crianças ainda pequenas a cargo, "não foi fácil".

"Eles sentem tudo. Tentámos com que eles não se apercebessem da situação, só que chegam a um ponto em que, por mais que estejam trancados em casa, ao ouvirem os tiroteios lá fora apercebem-se que alguma coisa não está bem", disse.

Fara Laley-Juva contou que a família esteve uma semana trancada em casa, à espera de poder sair e na incerteza "até ao último momento", sem saber se voltaria a haver um voo para o Mali que pudesse trazer a família de volta a Portugal.

Entre terça-feira e hoje, relatou a portuguesa, a situação acalmou, "mas não é era uma calma verdadeira", havendo sempre um receio latente de que o ambiente se degrade.

Fara Laley-Juva diz que deixou o país "numa situação muito complicada", sem qualquer perspetiva de acordo político ou de realização de eleições no prazo que estava previsto, e acredita que o Mali vai estar instável "durante dois ou três meses ainda".

Apesar de ter deixado o marido para trás, o regresso a África é ainda uma incógnita."Não sei, por agora estou aqui".

Fara Laley-Juva, que também tem nacionalidade francesa, disse que nunca sentiu necessidade de pedir ajuda às autoridades consulares. Carlos Ferreira sublinhou que apesar da situação tranquila que o grupo viveu, houve um acompanhamento pronto por parte da cônsul da Alemanha, que se disponibilizou de imediato para ajudar no que fosse necessário.

Ainda há portugueses no Mali

Um representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que estava no aeroporto para receber os portugueses que regressaram do Mali, disse à Lusa que há ainda cidadãos nacionais no país, mas que não pediram para regressar e permanecem no Mali por decisão própria.

O golpe de Estado de 22 de março derrubou o governo do presidente Amadou Toumani Touré semanas antes das eleições presidenciais previstas para 29 de abril.

Na origem do golpe de Estado, que matou pelo menos 50 membros da guarda presidencial, estará o descontentamento dos militares com a falta de meios para combater os rebeldes tuaregues no Norte do país.

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