Sociedade

Reportagem: Coser as peças e recomeçar ainda antes dos trinta

Reportagem: Coser as peças e recomeçar ainda antes dos trinta

Maria sentiu na pele que nem tudo é o que parece. Passava as férias de Verão com Tiago, numa aldeia do Norte de Portugal. As famílias conheciam-se e com um reencontro estival começou uma relação mais sólida, mas à distância. Ela no Porto e ele em Lisboa.

Quando ele conseguiu ir estudar um ano para o Porto, oficializaram a relação. Ela engravidou, "para que a família não pudesse negar a partida", e rumaram a Lisboa, onde supostamente "teriam muito mais hipóteses de trabalho", conta entre suspiros. Ambos conseguiram trabalho, ela como educadora de infância e ele numa empresa de transportes.

Quando revê a sua história tudo lhe parecem sinais. E agora entende como encerrou parte da sua vida e começou outra a partir de uma cama de hospital. Um dia ao sair do trabalho, foi abordada por um grupo de "bacanos" a quem via o seu ex-marido cumprimentar efusivamente. Apenas lhe disseram: "diz ao teu marido que a seguir é a miúda". De pouco mais se recorda.

Acordou no hospital com várias lesões. Tinha sido brutalmente espancada. Seguiram-se semanas de internamento, dores no corpo e na alma e as tentativas de explicar o sucedido. "Tinha 24 anos, era casada e tinha uma filha em comum com um traficante de droga. A minha vida e a dela estavam em perigo", relata.

A família de Maria, incrédula, resgata filha e neta e leva-as de volta ao Porto. Desse dia fatídico sobrou uma vasta herança: Maria deixou de comer; de se sentir segura; de acreditar na vida e nas pessoas. "O que eu queria era morrer, era ingénua ao ponto de me ter deixado enganar assim", confessa.

A somar à sua história, a família não quis dar explicações a ninguém ou contar a verdade sobre o que tinha sucedido. "Notava-se que havia um certo desconforto, as pessoas chegaram a levantar suspeitas sobre se eu tinha outra pessoa. Afinal de contas, quem abandonou a casa fui eu. Estava casada com uma besta e ainda tive de ouvir coisas inacreditáveis. Portugal é um país de bons costumes", remata.

O processo de divórcio foi fácil: "Eu não queria nada, o meu único desejo era não o voltar a ver. Mas, por outro lado, a minha filha tinha direito de ver o pai, por pior que ele fosse", relata.

O seu ex-marido, ainda que pudesse, nunca teve grande interesse em ver a filha. Aparece às vezes, com o espaço de meses. Quanto a Maria, a vida segue com a sua filha e família, namorados não tem. Ainda que admita que talvez seja tempo, agora que a filha lhe perguntou: "Óh mãe, quando é que arranjas um namorado?". Maria mostra um sorriso inocente ao ver os pedidos da filha. "A vida não pára, nem espera" , conclui.

Filipe esteve casado 11 meses. Não foi um casamento relâmpago, não foi um impulso, já viviam juntos. A sua ex-mulher era o "amor de liceu". Antes da "burocratização do amor", como intitula o casamento, o jovem economista tinha namorado com ela durante oito anos.

O divórcio tardou a concretizar-se uns penosos meses, desde Janeiro a Abril do ano passado. O acto foi simples: "Marcámos uma audiência, o homem leu o documento e assinámos. Mas ao contrário do casamento, desta vez não estava lá ninguém", relata . O difícil foi "em termos emocionais materializar a decisão", exprime.

E ainda que não creia na instituição, diz que "o casamento é um progresso e o divórcio anti-natura na evolução da vida em rebanho", conclui.

No campo económico "não houve luta, nem problemas com a divisão das coisas, sempre fomos muito organizados. Ela estava em pior situação profissional do que eu, mas sempre fomos amigos e tem sempre a porta aberta se precisar de alguma coisa", reflecte.

Filipe tem actualmente uma nova relação e confessa que a nível familiar houve um cuidado de explicar, sobretudo aos seus sobrinhos pequenos, que "a tia não ia voltar e que agora o tio tinha uma nova namorada, para evitar situações constrangedoras", conta. Apesar da nova relação, o casamento não faz parte dos seus planos, ainda que lhe façam piadas, dizendo que "ainda posso casar pela igreja".

No último ano e meio, a vida de Miguel deu uma grande volta. Era solteiro, estudava em Barcelona, no âmbito do programa Erasmus. Dezoito meses depois, está licenciado, divorciado, mas é pai. Tudo com apenas 26 anos.

Lembra-se bem do dia que marcou o ponto de viragem na sua vida: "Conheci a minha ex-mulher numa festa para alunos do Erasmus e apaixonei-me logo por ela. Tinha ar de nórdica e diferenciava-se bem de todos os outros, na sua maioria estudantes da Europa do Sul. Meteu-se comigo e chamava-me macho latino. Passado uma semana estávamos a viver juntos", recorda entre sorrisos amargos.

Dois meses depois, a então namorada, uma polaca, ficou grávida. Decidiram avançar com a gravidez e também com o casamento. "Um pouco por pressão da família dela, que achou que era uma vergonha se assim não fosse. Mas como planeávamos ficar juntos de qualquer maneira", cederam à pressão.

Casaram na Polónia, numa cerimónia civil preparada rapidamente para evitar que a noiva já tivesse uma barriga muito saliente. Acabado o período do Erasmus, em vez de regressar a casa, Miguel partiu rumo à Polónia. A falta de dinheiro dita que vão os dois viver para casa dos sogros. A adaptação foi difícil, "um tempo horrível, uma gastronomia péssima, cheia de vinagre, e sempre a sorrir para agradar aos meus sogros, aos amigos e irmãos dela", relata.

Quando o filho nasceu, "o comportamento dela mudou radicalmente: estava sempre irritada por tudo e por nada, dizia que eu lhe tinha estragado a juventude e que nunca poderia vingar na sua carreira. Eu apenas arranjei emprego numa fábrica, não sabia falar polaco e queria ganhar dinheiro para sair de casa dos pais dela e também para o bebé", relata.

O casamento durou nove meses. Regressar a Portugal foi um choque: "A minha família ficou toda contra mim", admite. Em termos materiais, não havia nada para dividir, apenas o filho continua a ser factor de discussão. O tribunal polaco decretou que "ficaria com a mãe e que eu o poderia ver, mas como vou para a Polónia de 15 em 15 dias?A lei é cega". A interrogação permanece sem resposta. As saudades apertam muito e tem conseguido, com a ajuda da família, ir lá a cada dois meses.

Aqui a vida prossegue, mas nada é o mesmo: "Quando eu me interesso por uma rapariga e ela sabe que sou divorciado e com um filho, afasta-se. Ninguém quer ser a mãe do filho de outra. Às vezes até pensam que estou a gozar", relata.

Apresentar outra pessoa à família também seria impensável. Além do mais, sempre que "saio à noite tenho de ouvir as bocas: 'vê lá o quê que fazes'. Devem pensar que vou engravidar outra pessoa" , ironiza. Arrependimento diz que não tem, mas "gostava que as coisas tivessem resultado entre os dois, era o melhor para o nosso filho", conclui.

Divorciada é o que diz o bilhete de identidade de Isabel. "Nunca mais nada volta a ser o que era", conclui, despida de sentimentalismos.

Isabel conheceu o seu marido pela internet. A longa distância que separava o Porto de uma pequena cidade transmontana arrastou-os para repetidas viagens com a ânsia de matar uma paixão impetuosa.

Passados seis meses, ela muda-se para casa dele e é então que decidem ter uma criança e casar. O casamento durou seis meses, terminou quando a bebé tinha apenas dois.

O processo de divórcio durou um ano, porque não chegavam "a acordo sobre as visitas e também havia uma esperança de que talvez ainda se voltassem a juntar", confessa. O facto da bebé ser ainda muito pequena também "não permitia um afastamento por muito tempo, porque ainda estava a amamentá-la, mas o pai tinha medo de perder o contacto com ela", explica.

Uma audiência foi suficiente para que solucionassem as divergências: "Houve uma pressão enorme, quem estiver reticente quase que casa de novo. Não nos falávamos quando lá chegámos e saímos do tribunal amigos. Assim que entrámos, disseram-nos: 'ou se entendem ou vão estar aqui anos' e isso assusta", confessa.

A primeira vez que se lembra de sentir uma reacção foi quando renovou o bilhete de identidade: "A senhora, ao ouvir o meu estado civil, fez um sorriso condescendente", conta. Mas nem só de compreensão foi feito este processo. "Houve algumas pessoas que se afastaram, afinal de contas ninguém se divorcia, logo, tinha de haver algo de errado comigo", ironiza.

A família nuclear foi o seu apoio, mas a sua vida profisional teve uma reviravolta, "porque tive de interromper uma formação que estava a fazer e recomeçá-la do zero no Porto, sem equivalências", relembra. Outra das coisas mais dolorosas é o facto de toda a gente querer falar sobre o assunto e "nós não queremos falar. A família também sofre muito connosco", reflecte.

Isabel admite ter um certo cinismo perante as relações, mas não descarta um novo casamento. Desta feita "com todas as etapas, conhecendo bem, e um namoro de ir à noite ao cinema", graceja.

O divórcio é uma violência emocional. Com esta sentença todos parecem concordar. Outro dos denominadores comuns é o facto de todos se sentirem ainda muito jovens para puderem recomeçar.

Afinal de contas, "a maioria dos meus amigos são solteiros", afirma Miguel. Maria concorda: "Há muito gente divorciada". Só na Europa são 340 mil cada ano.

Outras Notícias