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Ansiedade por não ter telemóvel já tem nome clínico

Ansiedade por não ter telemóvel já tem nome clínico

Está a aumentar a prevalência da nomofobia - manifestação de ansiedade provocada pela ausência do telemóvel, quer seja pelo esquecimento do aparelho em casa, falta de bateria ou falha de rede.

Em Espanha estudou-se o fenómeno e concluiu-se que a nomofobia atinge 53% dos utilizadores. Em média, consultam 34 vezes o telefone móvel por dia, revelou, por exemplo, o Centro de Estudos Especializados em Transtornos de Ansiedade. Em Portugal, a realidade não deve ser diferente, diz a psicóloga Rita Antunes.

No que toca à penetração total do serviço móvel, Portugal está até à frente de Espanha. A presença do aparelho ascende a 157,9 por 100 mil habitantes, enquanto em Espanha é de 125%, segundo dados da Telecoms e Media, datados de julho. Em Portugal 92,5% dos residentes são clientes dos serviços móveis, mas alguns acumulam mais do que uma assinatura. É o quarto país na lista europeia, enquanto Espanha está em 23.º.

"O uso dos telefones móveis cresceu a ponto de se chegar ao abuso", declara a psicóloga. "Há muita gente que não o desliga durante a noite, não o desliga durante as consultas e, quando o perde, fica sem cobertura, surgem os sinais de alarme: ansiedade que pode chegar a ligeira taquicardia, falta de ar, dor de cabeça, no limite". A psicóloga explica que "esta ansiedade costuma estar associada a outros transtornos da linha da ansiedade".

Na sociedade atual, "criou-se o gosto de estar em constante contacto e depois a necessidade de comprovar essa comunicação, vendo os emails e as mensagens com frequência, a um ritmo cada vez mais acelerado". Os adultos receiam perder oportunidades na área profissional, os jovens temem que lhes escape informação relevante sobre a vida social.

João Faria associa o uso excessivo do telemóvel à necessidade de não nos sentirmos sós, suprida, depois, graças à satisfação momentânea, e daí o potencial aditivo. "São os mais sozinhos que encontram ali a ilusão de estarem conectados", diz o coordenador do núcleo de intervenção no uso da internet e telecomunicações no Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil. Em simultâneo, criam no mundo virtual uma vivência social que não tem reflexo no dia-a-dia. "Muitas dessas pessoas tem dificuldade em relacionar-se presencialmente, pois dessa forma tem de haver confronto".

Sobre o problema da ansiedade, considera exagerado chamar transtorno de ansiedade a qualquer sensação de angústia fruto da falta de ligação via telemóvel. E parece-lhe elevada a prevalência em metade dos utilizadores. "Sentir desconforto, ansiedade, é bastante comum no ser humano, é um mecanismo adaptativo, que existe para prevenir perigo oriundo das das imediações. Perturbação da ansiedade do ponto de vista clínico remete para sintomas mais graves", defende.

Um dos sinais de dependência mais elementares prende-se com a necessidade constante de consultar o telemóvel, avisa Rita Antunes. Se fica perturbado ao estar uma hora sem espreitar o ecrã do telefone, há razão para refletir sobre isso.

Pretextos e justificações

O ser humano arranja sempre argumentos para sustentar novas necessidades. Rita Antunes está convencida de que o problema vai agravar-se, pois os equipamentos são cada vez mais apelativos.

Conduta a regular

O psicólogo João Faria não diaboliza o telemóvel. Trouxe muitas vantagens, como o maior acesso à informação. A chave está em saber tirar partido dele. O melhor é que cada um regule a forma como o quer usar.

Comer e dormir

Rita Antunes fala igualmente em autogestão e controlo no acesso ao aparelho. Estipular horários, definir locais: erradicá-lo das refeições, enquanto se dorme. Caso se sinta dependente, comece por desprender-se de forma gradual.

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