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Será possível um papa do hemisfério Sul suceder a Bento XVI?

Será possível um papa do hemisfério Sul suceder a Bento XVI?

Quem sucederá ao Papa alemão? Os cardeais terão pela frente uma escolha difícil numa época em que a Igreja enfrenta uma contestação interna e mutações rápidas no mundo: a eleição de um prelado do Sul de preferência a um Ocidental não é excluída, seja ele latino-americano, africano ou asiático.

A eleição do papa nunca foi dada como certa antes de um conclave: ninguém previu a possibilidade da eleição de Karol Wojtyla em 1978, mas para lhe suceder numerosas casas de apostas tinham nas suas listas de prováveis Joseph Ratzinger, o nome mais conhecido da Cúria.

Em todo o caso, a decisão do Papa de deixar o cargo devido à idade avançada terá "muita influência sobre a escolha de um novo papa", considera o vaticanista Marco Politi, salientando que a Igreja "tem necessidade" de dar lugar aos jovens. Ora, grande parte dos cardeais mais jovens e promissores são do hemisfério Sul.

O "colégio sagrado" que deverá encontrar o sucessor de Bento XVI deverá ter 118 cardeais eleitores (com menos de 80 anos), ligeiramente abaixo do limite previsto de 120.

A maioria (67) foram nomeados ao longo dos oito anos de Bento XVI e 51 receberam a púrpura das mãos de João Paulo II: uma maioria de prelados considerados mais conservadores foram recompensados, mas não só, como mostra o último conclave no outono de 2012. Bento XVI mostrou-se, sobretudo, interessado em nomear as personalidades doutrinalmente mais seguras.

Entre os 118 eleitores que representam perto de 1,2 mil milhões de católicos, 62 são provenientes da Europa dos quais 28 são italianos, 19 da América do Sul, 14 da América do Norte, 11 são africanos e outros 11 são provenientes da Ásia. Apenas um é da Oceânia.

Vários candidatos ocidentais próximos do Papa alemão, teólogos e intelectuais, têm algumas hipóteses, segundo os conhecedores da Santa Sé, mesmo que o simples facto de ser Ocidental, europeu ou mais ainda italiano, seja um "handicap" aos olhos de certos cardeais vindos das igrejas do Sul, cada vez mais florescente. Uma das críticas ao actual pontificado tem sido precisamente o de ser demasiado "eurocentrista".

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O cardeal do Quebeq, Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, o cardeal Angelo Scola, arcebispo de Milão e teólogo muito apreciado pelo Papa, têm sido os mais citados nos últimos tempos numa espécie de "totopapa", o jogo dos prognósticos.

Porém, de acordo com certos analistas, os dois são intelectuais incisivos a quem falta carisma pastoral, quando a Igreja tem necessidade de um pastor ao estilo João Paulo II, após o pontificado austero da colocação em ordem e do regresso às origens da fé, que caracterizou o período de Bento XVI.

As hipóteses de um húngaro, Peter Erdö, e do austríaco amigo do Papa Christoph Schönborn, têm vindo a decair nos últimos tempos. Um americano tem vindo a ser citado: o cardeal de Nova Iorque, Timothy Dolan, um dos "conservadores modernistas" apreciados pelo Papa, conhecido pelas declarações acutilantes e pelo talento mediático. Também este tem um "handicap": o de ser americano...

Quanto a um cardeal italiano, mesmo que os italianos estejam sobrerepresentados no colégio sagrado, pode sofrer os efeitos do escândalo da fuga de documentos conhecida por "Vatileaks", que foi conhecido em 2012 como resultado das querelas internas entre os italianos.

Entre os africanos, o cardeal ganês Peter Turkson, à cabeça do Conselho Pontifício "Justiça e Paz", e o cardeal nigeriano John Onaiyekan, que prega a coexistência pacífica entre cristãos e muçulmanos, podem entrar na corrida. Os cardeais africanos estão entre os mais conservadores no plano doutrinário.

É lógico que a América Latina, o continente onde está o maior número de católicos, seja recompensada. O Brasil, sobretudo, primeiro país do Mundo em número de fiéis, pode apresentar um candidato, como o cardeal Claudio Hummes e o cardeal João Braz de Aviz, homem de abertura, simpatizante de uma versão moderada da teologia da libertação, atualmente à cabeça da poderosa Congregação para os Religiosos. Os países hispânicos, como o México, a Colômbia ou a Argentina - com o cardeal Jorge Mario Bergoglio - procuram apresentar um sucessor rival. O cardeal hondurenho Oscar Rodriguez Maradiaga, presidente da Cáritas Internacional, tem o apoio de numerosos progressistas mas tem uma imagem demasiado de esquerda, enquanto o episcopado latino-americano se renovou nos últimos vinte anos num sentido conservador, com um peso marcante da Opus Dei.

Fora de todos os esquemas pré-estabelecidos, o novo cardeal de Manila, Luis Antonio Tagle, de 55 anos, ativo, dinâmico, carismático, é uma estrela em crescimento no firmamento da Igreja. Muito popular na Ásia, este filipino é simultaneamente moderno e muito ortodoxo nas grandes questões doutrinárias.

No entanto, o colégio dos cardeais formado por João Paulo II e por Bento XVI não elegerá, seguramente, um revolucionário aventureiro, nem um prelado que não tenha uma formação dogmática aprofundada. Tudo aponta para a escolha de um "modernista conservador" capaz de avançar com reformas mantendo o essencial.

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