Por volta de 1860, Emily Dickinson escreveu um poema com o título original “They shut me up in prose”. Numa tradução de Margarida Vale de Gato, disponível no website Jogos Florais, o texto é este:
Trancaram-me na Prosa
Como quando, uma Garota,
Me castigavam no Quarto
Por me quererem “sossegada”
Ora! Pudessem eles espreitar
O meu Cérebro— andar à volta
Tanto valia encurralarem
Um Pássaro— por Trespasse
Ele só tem de querer
E com ligeireza de estrela
Abolir seu Cativeiro
E rir— O mesmo a mim me basta
Este poema transmite uma mensagem central de liberdade: na sociedade do século XIX, em que as mulheres se queriam “sossegadas”, dóceis e recatadas, Emily Dickinson exclama que o pensamento é livre e ri de quem julga que o pode controlar. Há uma força neste poema que ainda hoje nos impressiona. Porquê?
Talvez porque não está assim tão longe esta vontade de ter as mulheres “sossegadas”. Não é preciso recuar cinquenta anos, a um tempo onde as mulheres deviam obediência aos maridos, onde não eram livres para escolher a sua profissão, para viajar ao estrangeiro ou para abrir uma conta bancária; basta lermos o que tem sido publicado recentemente sobre a tendência soft-girls.
Esta tendência celebra a escolha por um estilo de vida mais calmo, em que as jovens mulheres têm mais tempo para cuidar de si. Definida deste modo, a opção por ser uma soft-girl parece fazer todo o sentido, sobretudo quando as estatísticas nos falam do aumento de problemas de saúde mental nas adolescentes e jovens mulheres, associados a ansiedade e stress. Há como que uma paz doce numa vida aparentemente simples, onde há tempo para moer a farinha com que se vai fazer o pão para o pequeno-almoço – e também para se fazer um post sobre isso.
Porém, se pensarmos que esta tendência se baseia no desinvestimento na formação académica e na dependência financeira dos namorados e maridos destas soft-girls, temos razões para alarme: a paz doce pode tornar-se facilmente numa paz podre.
Através de diversos estudos, como os que têm sido realizados pelo Banco de Portugal, sabemos que a formação académica está associada a remunerações mais altas e a menores taxas de desemprego; sabemos também que permite o desenvolvimento da capacidade crítica, tornando as pessoas mais aptas a discernir a credibilidade da informação a que são expostas, como tem defendido repetidamente a OCDE. Nessa medida, desinvestir na formação académica tem riscos elevados para a sociedade em geral e para as próprias soft-girls, que assim fecham as suas opções de futuro.
Para além disso, a dependência financeira dos namorados e maridos coloca as soft-girls numa situação de fragilidade. Segundo dados oficiais da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, Portugal registou, no ano passado, mais de trinta mil participações à PSP e GNR por violência doméstica, sendo as mulheres as
principais vítimas. Em relações que se caracterizem por abusos e violência, a falta de independência financeira coloca as soft-girls numa posição de vulnerabilidade de que pode ser difícil sair.
Note-se que é compreensível que as jovens mulheres em Portugal se questionem quanto ao seu papel na sociedade: ou porque estão exaustas de trabalhar fora e dentro de casa, tentando um equilíbrio entre a vida profissional e pessoal; ou porque têm uma remuneração inferior, em média, à dos homens; ou porque ouvem falar da proteção da parentalidade, mas não têm suporte no regresso ao trabalho. Neste contexto, aderir à tendência soft-girls é tentador e aparenta ser uma boa escolha: a vida é mais fácil. E as imagens cuidadosamente editadas nas redes sociais mostram mulheres bonitas, bem arranjadas, sorridentes e “sossegadas” - como muitos as querem, ainda.
Mantenhamo-nos vigilantes: a liberdade custa a conquistar, mas perde-se num sopro.

