Durante três quartos de século a Esquerda viveu-se a si mesma como actriz e horizonte de um movimento histórico que tinha no Socialismo o seu discurso legitimador e a sua utopia.
Bastaram duas décadas não só para relativizar esse discurso e obscurecer essa utopia, como para promover o discurso dominante, na aparência irresistível, a apologia do capitalismo e do tipo de sociedade que dele releva e contra a qual surgiu precisamente o Socialismo. Não como mera crítica ideológica do capitalismo mas como resistência activa e, em seguida triunfante, sob o modelo histórico desse capitalismo.
Claro está que essa vitória sobre o capitalismo nunca foi universal, mas o seu triunfo na União Soviética e na China parecia irreversível e, como tal, era percebido pelos que lhe resistiam e, sem tréguas, o combateram. Na verdade, o Socialismo e a Esquerda que o representou como a forma mais acabada e coerente dele, não foram vencidos por esse capitalismo contra o qual se inventaram e nasceram, mas por si mesmos. Em particular, pela má leitura que fizeram, desde o início, da sua inesperada e contingente vitória, que não fora sobre um capitalismo que a Rússia czarista mal tinha, mas sobre uma sociedade feudal, quase esclavagista, e intimada voluntaristicamente a suprimir a classe que mal fizera a sua revolução liberal e burguesa. Este engano de leitura que foi, desde a primeira hora, o pecado original da revolução de Outubro, nunca mais seria emendado. No tarde, quando parecia poder sê-lo, já não pôde conciliar o seu voluntarismo exangue e os meios para levar a cabo uma revolução dentro da revolução.
Num movimento sem precedentes na História do Ocidente, quando o refluxo revolucionário, há muito previsível, estacou, o Socialismo deparou-se, incapaz de lhe dar resposta, com o mesmo capitalismo de há mais de meio século, sempre invencível e, agora, sem antagonista, nem no plano ideológico, nem político, nem cultural. Com a queda do Muro de Berlim e o fim da experiência soviética, o Socialismo como mito, e a Esquerda que dele vivia, tornou-se um envelope vazio. Pior do que isso, o seu conteúdo, agora sem emprego histórico concreto, foi integrado, na medida do possível, na mitologia do capitalismo, única prática universal da humanidade, como patologia dela ou versão de sonhos que só o capitalismo concebe e alcança.
Esta foi, esta é a tragédia da nossa História como Socialismo, esse Socialismo que devia ser o seu cumprimento, a realização da sociedade capaz de superar a contradição que durante milénios a fez viver como luta impiedosa entre privilegiados e submissos ou excluídos, na participação do seu próprio futuro. E para bem marcar que a vitória virtual sobre o capitalismo que parecia o destino da História e o havia deixado intacto, não só sob a forma de socialismo de Estado, mas na sua essência, assistimos depois da queda do Muro a um festival simbólico com os emblemas do Socialismo ao serviço do capitalismo, de novo "eterno". Marx de chapéu alto com o cigarro capitalista entre os lábios, a foice e o martelo em ouro maciço sortidos de diamantes a servir de publicidade à Bolsa americana, Che Guevara convertido em ícone da moda mais snob do mundo ocidental, foram alguns dos emblemas desta inédita, lúdica, mas pouco inocente inversão de signos.
E nada se pode conceber como mais eficaz do que esse carnaval capitalista como enterro do Socialismo, o vencido enquanto histórico e o vencido como actor antagonista da luta à escala planetária contra o redivivo capitalismo nunca mais triunfalista do que hoje.
Não se tendo identificado com o socialismo soviético, antes tendo contribuído para a sua contenção por dever ou imperativo democrático, a Esquerda ocidental supôs o seu destino ao abrigo da derrocada do socialismo em versão soviética. Mais, liberta da hipoteca totalitária do socialismo estaliniano ou maoísta, sentiu-se, durante algum tempo, confortada na sua aposta de um "socialismo de face humana" de boa memória, ou apenas de um socialismo como a única expressão aceitável de uma sociedade capaz de conciliar os imperativos democráticos da liberdade e os imperativos não menos essenciais de uma equidade e de uma justiça social dignas desse nome. Morto o socialismo totalitário, o caminho parecia de rosas para a sua versão humanista da social-democracia.
Durante a última década do século XX este modelo pareceu impor-se com algum sucesso naquele espaço que nós tomamos, eurocentristas impenitentes, não apenas como modelar por conforme e filho das nossas lutas sociais e culturais seculares, mas como vocacionado para modelo mundial. A Alemanha, a França, a Espanha, nós mesmos, ambiguamente a Inglaterra, convictamente a Suécia, a Noruega, a Dinamarca pareceram exemplificar com sucesso esse modelo de uma social-democracia como a possível versão de uma Esquerda que abdicara das suas pretensões dogmáticas, se não teológicas. Uma Esquerda "soft" cercada de um oceano de liberalismo que sempre lá estivera, mas parecia disposto a entender-se com esse contraponto democrático ao seu hegemonismo, acabou por se revelar impotente, primeiro no plano económico e financeiro, depois no plano social e político, cedendo terreno em todas as frentes. E, por último, como consequência do resto, no plano ideológico e cultural.
A Esquerda, sob todos os matizes, perdeu o pé na história - do Ocidente - de que era o sal e o sol, a "luz", com o apagamento misterioso e simultâneo do seu discurso e da sua tradição. Precisamente aquela que as Luzes haviam iniciado. Dessa tradição fazia parte a crença de que a crítica a uma sociedade estruturalmente injusta como a que o capitalismo gerara era a sua razão de ser que, a luta para remediar essa injustiça era o seu ponto de honra, ao mesmo tempo dever e necessidade, o que instituía a Esquerda como má consciência da História e seu messias virtual. Que aconteceu para que essa "crença", feita de paixão e de razão, se obscurecesse até ao ponto de deixar o campo livre à celebração e à glória de um novo liberalismo como expressão não só económica mas cultural de uma prática capitalista tornada incontornável e sem correctivo algum que não proceda da sua autodefesa e da sua capacidade de se renovar, inovando sem cessar a sua prática social e cultural? Claro que a derrota histórica do comunismo explica muita coisa. Mas como o socialismo democrático foi arrastado nessa catástrofe, que ele mesmo tinha como fatal ou necessária? Em escassos anos, sob a vaga de fundo do neoliberalismo americano e anglo-saxónico, a realidade e a cultura política do Socialismo, tais como as diversas expressões sócio-democratas as encarnavam na Europa, conheceram desaires sucessivos "Felipe Gonzalez, Jospin d'Alema e Guterres" e, por fim - neste momento -, uma inversão da tendência que se parece menos com uma crise da Esquerda do que com um seu eclipse. Passageiro ou duradouro? Na ordem meramente política, a actual depressão da antiga vaga socialista na Europa poderá parecer uma mera e muito democrática - ou até salutar - expressão de alternância. Numa óptica de democracia de luxo, talvez o seja. Mas a História social, a História da Humanidade "tout court" é um combate sem tréguas. Nada é gratuito nela. O enfraquecimento político e ideológico do socialismo na Europa, não é um acontecimento formal. Faz parte do combate. No tempo da sua boa consciência, o Socialismo e os socialistas - convictos de serem não só a paixão mas a voz da História - confortavam a sua ideologia e a sua crença militante denunciando a justo título as contradições, quer dizer, os impasses da sociedade que combatiam. Viviam mesmo excessivamente disso. Neste tempo de vacas magríssimas, o Socialismo deve preocupar- -se com as suas próprias contradições. E mais urgentemente, revisitar a sua própria ideologia e mais do que tudo a prática dela. Como tendo tão rara e penosamente chegado ao poder na maioria das sociedades ocidentais não esteve à altura das suas responsabilidades? Como tendo sacrificado tanto na sua luta para tornar a sociedade mais justa e igualitária sucumbiu, como se o vírus burguês fosse fatal, à atracção dos valores e das práticas dos seus inimigos? Como se mimetizou ao ponto de se tornar, nos seus responsáveis, uma classe política dificilmente discernível daquela que pretendeu substituir e superar?
Se o Socialismo já está realmente "fora da História", se o seu projecto deixou de seduzir por nada ter de sedutor, nenhuma magia o restituirá ao esplendor das suas ilusões, àquele momento em que se supôs "Luz da História" e seu fogo reparador. Mas nenhuma história está escrita, salvo a morta. O Socialismo não se regenerará por uma cosmética política copiada do seu adversário com muita publicidade e Internet. O Socialismo precisa de ser em todos os sentidos reinventado para poder ser ainda - se é possível - o actor da história e a alma do futuro que imagina para o comum dos homens. O Socialismo é filho da História e o que a História lhe deu a História lho tira.
Querer voltar ao poder como hoje - ou quase sempre se entendeu - não é programa de nada, só dos profissionais do Poder. A essência do Socialismo é a de ser - até onde é pensável - uma ideologia do não poder. É inútil buscar mais longe a razão última dos seus limites e dos seus desvaires como Ideologia e como Política, sem falar da sua inanidade como cultura. Se o Socialismo no Ocidente como horizonte e referência de milhões de pessoas deixou de estar na moda - a ponto até se ter tornado "impopular"… - à sua incapacidade de ser uma outra visão do Poder e uma outra ética do seu exercício, em grande parte o deve. Não que a do capitalismo neoliberal ou globalizante seja melhor, pois é impossível, mas tão só e apenas porque o Socialismo nasceu e só tem sentido como crítica, resistência e contenção dos malefícios ou dos efeitos desumanizadores do capitalismo. Esgota-se ou está esgotado por isso um Socialismo que já não pode impedir o seu triunfo ou limitar os seus efeitos nefastos? Neste ofício angelista o Socialismo não deixou a sociedade entregue aos seus demónios, limitou-os e limitou-os como poder - mesmo sobre outro nome, como reformismo - mas a sua impotência, ao menos aparente, está pedindo é uma autêntica revisitação da sua mitologia, simultaneamente sublime e simplificadora. Entre os escolhos simétricos da "má consciência" da História (como capitalismo) e da "boa consciência" dessa História (como socialismo), a senda é estreita. Tão estreita neste momento que parece fora de alcance. O tipo de sociedade em que nos convertemos é tão alienado e alienante que nem a mais magnífica utopia que inventámos para nos dar um futuro com o nosso rosto é capaz de convocar a paixão e o sonho que a fizeram nascer. Tanto pior para nós.
Esquerda na Encruzilhada ou Fora da História?
Eduardo Lourenço
Gradiva
