1. Eis os novos heróis nacionais. Estão no programa televisivo que na noite de estreia foi visto por mais de um milhão e setecentos mil portugueses. A patologia transformou-se em espectáculo. Todos o perceberam, ninguém tenciona ocultar a questão. Os concorrentes do Peso Pesado, fácil de ver, estão doentes e não devia ser ali o lugar para cuidar do maltratado do corpo. Cabe aos serviços de saúde ajudar estes pacientes. Das duas, uma: ou não pediram ajuda no sítio certo, ou quem devia acompanhá-los, fez de conta que não viu e passou à frente.
Mas já que lá estão, na pantalha, actores reais num papel grotesco, era escusado humilhá-los. Ver uma jovem de 28 anos, e mais de 170 quilos, a arrastar-se, a enterrar-se numa poça de lama, é excesso de crueldade. Só assim, parece, tem lugar no programa como se fosse a coisa mais importante da sua vida. Ver a jovem cair e, por uma finta do destino, não conseguir levantar-se jamais pode virar cena de espectáculo. A dignidade da pessoa humana na lama, verdadeiramente na lama. O espectáculo choca, não distrai.
Os concorrentes pesados, ou pelo menos a maioria deles, precisam de ajuda. E a SIC poderá ajudá-los, motiva-os a fazer aquilo que mais precisam: emagrecer. Mas isso, como se viu, tem um preço: o espectáculo, o espectáculo do grotesco. Eu sei. Ninguém participa no programa coagido, e só vê quem quer. Pela minha parte passo. Vi o primeiro, basta.
2. Sexta-feira, os sindicatos da Função Pública convocaram uma greve. A greve é um direito, sem dúvida. E o dia não podia ser mais bem escolhido. Mais de 235 mil alunos, do 4º e 6º ano, fazem provas de aferição. A pergunta impõe-se: devem as crianças ser sujeitas a tal pressão?
Faz parte da lógica do protesto: greve só tem impacto, só dá frutos, se criar contratempos e demonstrar a importância da função de quem paralisa. Caso contrário, ninguém dá por ela. Passa despercebida. Mas, enfim, parece ser de bom senso haver alguns cuidados na escolha dos alvos.
