Karaoke wrong number, um vídeo de Rachel Perry Welty, foi a peça que mais me divertiu e intrigou - pondo-me por isso a pensar, o que só pode fazer bem porque as pequenas celulazinhas cinzentas precisam de treino - da coleção do Institute of Contemporary Art (ICA), instalado num edifício de arquitetura arrojada, que desfruta de localização privilegiada, junto à baía de Boston, e eu tive a felicidade de visitar no último domingo - entrou diretamente para o meu top ten pessoal de museus, ao lado de Serralves e do Luisiana, nos arredores de Copenhague.
Sentada na beira da cama, tendo como cenário uma parede branca e banda sonora as mensagens que estranhos deixaram por engano no seu gravador de chamadas, Rachel captura a nossa atenção e dá-nos uma soberba lição de representação, durante os 6m52s que dura o vídeo ao dobrar magistralmente, com movimentos de lábios e expressões faciais e gestuais perfeitas, as diferentes vozes que se vão sucedendo, femininas ou masculinas, com sotaques, ritmos e intensidades diversas.
E é absolutamente impagável a cara neutra e expressão asséptica que ela consegue afivelar no intervalo ocupado pelos pis e a voz de continuidade do gravador de chamadas.
Estive uns bons 20 minutos a deliciar-me com o doce engano proporcionado pela riqueza das expressões de Rachel neste sofisticado exercício de playback. Tal como na presença de um bom ventríloquo, sabemos que não é o boneco que está a falar, apesar de nos parecer mesmo que as palavras e frases saem dos seus lábios.
A nova variante da grande ilusão introduzida por Rachel Perry Welty fez-me logo lembrar as mensagens corretas e formalmente bem articuladas que os líderes políticos treinam afincadamente para passar sempre que se acende à sua frente a luz de uma câmara de televisão.
Seguro quer uma agenda do crescimento e propõe que se afrouxe o nó da gravata da austeridade. Ninguém pode deixar de estar de acordo com estas propostas. Mais crescimento, menos austeridade. Mas nesta comunicação há um ruído idêntico ao do vídeo da Rachel, quando a cara, lábios e gestos dela imitam na perfeição a voz do estafeta negro que lhe deixou um recado, mas apesar disso nós sabemos que a realidade não é bem assim. Conhecem alguém que prefira o agravamento da austeridade ao crescimento económico? Conhecem alguém que não queira ganhar o jackpot do Euromilhões?
Todos (pelo menos quase todos) queremos viver melhor, trabalhar menos e ter mais dinheiro no banco e no bolso. Mas para o discurso da "agenda do crescimento" não soar a karaoke ou a truque de ventríloquo, seria conveniente destrocar a coisa por miúdos e elencar as ideias brilhantes que nos podem pôr de volta no trilho da prosperidade. Estou ansioso por ouvi-las, porque se a receita for a do costume (aumento da despesa e da dívida pública) sou capaz de passar a preferir aguentar o frio do pacote de austeridade ditado pela troika.
