Sem que a troika ou o Governo de Passos Coelho tenham alguma culpa no assunto neste particular, Portugal teve uma passagem de ano lavada em lágrimas. Desde os últimos dias de 2013 até estes primeiros tempos de 2014, fartos motivos têm levado milhões de portugueses às lágrimas. Lamentavelmente as lágrimas a que me refiro não são as que se vertem por gosto, em momentos de prazer ou felicidade intensa, como quando vamos até ao Douro profundo e nos deixamos emocionar por aquela paisagem contemplada com um belo vinho duriense por perto.
Bem pelo contrário, evoco lágrimas de dor, desespero e raiva provocadas por desaparecimentos súbitos (ou menos súbitos), mas quase todos evitáveis (ou adiáveis) se os comportamentos tivessem sido mais consentâneos com quem gosta da vida e de a viver quanto mais tempo melhor.
Nos vários acontecimentos a que já aludirei em concreto, há uma falta de respeito que aparece como transversal. Falta de respeito pela vida, mas curiosamente, também falta de respeito pela morte.
Nas últimas semanas, o mar português já engoliu, fez desaparecer ou feriu muitos "compatriotas". Não entram nesta contabilidade mórbida aqueles que morreram na faina da pesca, como não entrariam em conversa parecida todos os que morrem a conduzir ou em acidentes de trabalho, que não se colocaram em situações especiais de risco, fruto de infrações voluntárias. Nestes casos, é a vida no seu pior. A vida que se vive com maior ou menor risco assumido, mas é a vida de todos os dias, que não se pode ganhar sem corrermos o risco de naturalmente a podermos perder. Costumo dar o exemplo da senhora, já idosa, mas cheia de saúde, que morreu quando ia a passear normalmente numa zona normal da Foz, num dia normal e foi atingida por um tijolo que lhe caiu em cheio na cabeça, vindo do alto de um prédio, sem aviso e sem motivo aparente ou previsível.
Outra coisa são as vidas de jovens e menos jovens que o mar arrasta com aviso prévio, que é negligenciado por quem acha que estas coisas só acontecem nos filmes. Ou então só em países longínquos, de nomes esquisitos. Ou por cá, OK, mas só aos outros, que nós somos feitos de outra massa...
Oh mar salgado, quanto do teu sal é feito de lágrimas de Portugal? Houve tempos assim, sim, em que os portugueses que o mar engolia mereciam um poema que os imortalizasse e lhes rendesse a homenagem devida a quem afrontava os mostrengos do mundo em cascas de noz.
Muito diferente do que se passa agora, quando o mar arrasta jovens incautos ou mirones suicidas que ensaiam o tal passo em frente diante do abismo.
As desgraças a que temos assistido configuram uma falta de respeito pela vida que não é admissível em nenhum país civilizado, mas que assume foro de escândalo num país como o nosso, que somos um jardim à beira-mar plantado há muitos séculos.
Estamos todos velhos e relhos de saber daquilo que o mar é capaz de nos dar, mas também de nos tirar e até ao dia em que um tsunami nunca visto nos invadir as costas, lamento, mas não posso aceitar que morram pessoas em terra raptados por ondas do mar!
Outro tipo de onda, de emoção, percorreu o país por causa da morte de Eusébio. Enquanto a senhora presidente do Parlamento anda a contar os tostões para saber se temos dinheiro para instalar os restos mortais do Pantera Negra no Panteão Nacional (onde já está gente parecida, mas também onde não está gente que se calhar merecia mais...) pude assistir ontem a uma falta de respeito pela morte que também me chocou. Depois de tantas e tão vibrantes manifestações públicas de pesar e de homenagem, no velório, no estádio, na Câmara de Lisboa, na igreja e no cortejo fúnebre, era preciso permitir a balbúrdia a que assistimos no momento de devolver o corpo à terra, em pleno cemitério?
Sempre fui defensor do culto dos vivos contra o culto dos mortos. Acho que é enquanto vivos que devemos mostrar às pessoas de quem gostamos o quanto gostamos delas e como gostamos delas. Para que elas fiquem a saber.
Quando vejo exageros e histerismos como os que presenciei à volta do enterro de Eusébio, ocorre-me sempre imaginar o que diria o defunto com tantos sapatos à volta...
