Mário Soares, para justificar o apoio que dá a António Costa para a liderança do PS, utiliza um argumento poderoso: com António Costa, os membros do PS passarão a tratar-se, novamente, por "camaradas" e a levantar o punho esquerdo fechado - ao contrário, parece, do que acontece, presumo, desde que Mário Soares "meteu o socialismo na gaveta"...
Naturalmente que, nesta fase da sua vida, Mário Soares parece simbolizar a ala esquerda do PS, procurando, com este argumento, dizer que Costa representará uma viragem à esquerda nas políticas do PS.
Para quem não é ingénuo, a intenção é clara. O PS, apesar de ter ganho as duas últimas eleições, autárquicas e europeias, teve resultados baixíssimos, que demonstram bem como o eleitorado não esquece as responsabilidades que este partido tem no estado a que o país chegou, fruto de ter estado, nos 40 anos de democracia, mais de 20 anos na liderança do Governo - sozinho, ou coligado com o PSD ou o CDS.
Estes fracos resultados, numa altura em que o PSD e o CDS, juntos, obtêm os piores resultados da sua história, colocam os "pensadores" do PS perante uma evidência. A de que, ao contrário do que aconteceu anos a fio, o eleitorado não está virado para a alternância do "vira o disco e toca o mesmo". Perante esta situação, e procurando conter o reforço, que parece sustentado, do PCP/CDU, a ideia é apresentar António Costa como a ala esquerda do PS, que vai imprimir ruturas com a direita simbolizada pelo PSD/CDS. O problema é que esta história já se repetiu vezes sem conta: a do PS com discurso de esquerda para conquistar o poder para, dessa forma, implementar políticas de direita. Como aconteceu "n" vezes em Portugal e mais recentemente em França, onde Hollande cativou à esquerda para derrotar Sarkozy e, agora, segue as mesmas políticas, abrindo campo para o crescimento da Frente Nacional de Le Pen.
E, no caso, creio mesmo que com Costa, se conseguir que o PS ganhe, como Seguro, as eleições, espera-nos um governo do bloco central. É evidente que os desejos do PS, com a maioria absoluta que alguns apoiantes de Costa clamam, mais não são do que uma ridícula repetição dos apelos de Almeida Santos, em 1985, a essa mesma maioria absoluta, que se traduziu, na época, na maior derrota eleitoral do PS, com pouco mais de 20% dos votos. Assim, e dado que as ideias de Costa são de continuidade relativamente às políticas de Sócrates (ou não tivesse sido ele um dos seus mais importantes ministros e indefetível apoiante), a convergência à esquerda não será possível, mas à direita sim. Naturalmente, sem Passos Coelho, que sairá da liderança do PSD sob o peso de uma previsível derrota eleitoral. E possivelmente com Rui Rio, que tem aparecido cirurgicamente com umas entrevistas e umas intervenções públicas onde procura, invariavelmente, alimentar a imagem de "rigor" e de "competência", bem como do seu desapego à política - que até o levou a ter uma profissão "honesta" numa empresa privada.
Alguns dirão que isto é futurologia. Naturalmente, e a política tem muito de xadrez, ou seja, de estratégia, em que os diversos cenários são trabalhados (muito) antecipadamente. Mas vou relatar um caso, a que assisti de forma ativa, que mostra bem as convergências e cumplicidades de Costa com Rio.
Rio utilizou amiúde o Decreto 35106, de 1945, que o salazarismo produziu e que permitia, por exemplo, que as famílias fossem despejadas de habitações municipais pela "simples" razão de se tornarem "indignas do direito de ocupação" (literalmente!). O PCP apresentou uma proposta de revogação dessa lei e uma Comissão Parlamentar trabalhou afincadamente numa legislação alternativa. Consensualizada essa proposta, ia a mesma subir ao plenário para ser votada, quando Rio (então primeiro-vice-presidente do PSD) interveio para suspender o processo. E, em conjunto com António Costa (já presidente da Câmara de Lisboa), "cozinharam" uma nova legislação que permite que os despejos se façam se os inquilinos derem às casas uma utilização "contrária aos bons costumes" (literal). Situação que é ainda mais grave, quando se sabe que este tipo de fundamentação não tem de ser previamente validada pelos tribunais. Pelo que basta recorrer a este argumento para despejar o inquilino. E este, se quiser, participa aos tribunais que, daqui a uns anos, decidirão da validade desta fundamentação. Entretanto, os despejados que aguardem na rua.
Com "camaradas" destes...
