Esta era uma expressão que, quando era menino, se utilizava muito. E, quando a utilizávamos, queríamos dizer que "eles" estavam a mentir ou, pelo menos, a exagerar. E como hoje escrevo sobre a água, pareceu-me uma expressão apropriada para descrever o que nos andam a tentar impingir. De facto, o Governo colocou na ordem do dia a "necessidade" de o preço da água no "litoral" ter de subir de forma a que os moradores do "interior" vejam o preço diminuir. Não é preciso ser muito inteligente para perceber que, na boca de governantes que tudo têm feito para desertificar ainda mais o "interior" (fechando serviços de saúde, tribunais, escolas, correios, repartições de finanças...) esta súbita preocupação com esse espaço territorial cheira a "regadela" das grandes!
Assim, e porque a memória, embora menos oleada, é coisa que não me abandonou, recordemos alguns factos sobre esta problemática da gestão da água, centrados na região do Porto.
As captações da água que abasteciam grande parte dos municípios do Grande Porto eram pertença dos SMAS - Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento da cidade do Porto. O crescimento da população, o aumento do consumo, as barragens no Douro (diminuindo caudais e provocando a salinização de uma grande parte do troço final do Douro), a falta de investimento e opções técnicas duvidosas levaram ao aparecimento de problemas no abastecimento de água - quem não se recorda do sabor salgado da água em alguns verões ou das crónicas faltas de água em Ermesinde?
Estes problemas (muitas vezes sobrevalorizados e mesmo provocados) foram o pretexto para a retirada das captações da água à tutela dos SMAS do Porto, entregando-as a uma sociedade anónima entretanto criada e designada por Águas do Douro e Paiva. Empresa essa que tinha sido constituída na sequência de diversas leis e revisões constitucionais que possibilitaram a criação de empresas públicas sob a forma de sociedades anónimas, bem como a abertura à iniciativa privada de um setor estratégico como a captação e distribuição de água. Dois processos que decorreram paralelamente e que uniram, invariavelmente, o PS, o PSD e o CDS.
A empresa Águas do Douro e Paiva juntou duas dezenas de municípios a uma empresa estatal chamada Águas de Portugal, tendo assumido a responsabilidade pela captação de água e pelo seu fornecimento/venda aos municípios que depois a distribuem/vendem aos cidadãos. Creio que não há dúvidas sobre a lógica da solução técnica: não é razoável que cada município tenha o seu próprio sistema de captação de água e também não é razoável que um município tenha o monopólio da captação vendendo a água aos outros municípios. Mas esta lógica, técnica, não escamoteia o que verdadeiramente estava por trás desta solução: dar um primeiro passo no sentido de retirar aos municípios a gestão da captação e distribuição de água, primeiro passo para a sua privatização - num processo em que se aplica a máxima de não pôr o sapo na água a ferver (para ele não saltar), aquecendo-se lentamente a água da panela com o sapo lá dentro......
E isto porque se escolheu um modelo multimunicipal, onde os municípios apenas detêm 49% do capital social, ficando os restantes 51% nas mãos da empresa Águas de Portugal - como me lembro, nas assembleias-gerais, o desconforto que me causava o facto de o representante do Governo (na altura, Mário Lino, depois ministro de Sócrates) levantar a mão e isso valer mais do que as mãos de 20 representantes das autarquias!... Num processo em que adquiriu por "tuta e meia" o património dos SMAS do Porto (que tinham captações e condutas), num negócio avalizado por Fernando Gomes que viu no mesmo a fonte de financiamento do seu segundo mandato.
Sendo que a alternativa correta era um sistema intermunicipal, como a LIPOR, constituída exclusivamente pelos municípios que, assim, mantinham a posse e o poder sobre o bem público que á a água.
Com este modelo, basta ao Governo impor às câmaras o aumento do preço de venda da água aos municípios (tem maioria na Águas do Douro e Paiva para o fazer). E, com isto, torna ainda mais apetecível a privatização da empresa Águas de Portugal, que a acontecer fará com que a maioria dos sistemas de gestão da água fique na mão de privados, possivelmente estrangeiros!
Pelo que, quando vejo gente do PS, PSD e CDS locais, agora, a criticarem a situação, fico com a plena convicção de que procuram "sacudir a água do capote", regando!...
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