Um amigo espanhol, de Madrid, dá-me sempre a mesma resposta quando lhe pergunto como é sair de casa todos os dias num país onde o fantasma do terrorismo se passeia com o à-vontade de uma brisa. "Fácil: não podes deixar que ele tome conta de ti. Senão, não vives". Agir de uma forma descomplexada perante um risco que é tremendo, mas de expressão incerta, não é só um ato de coragem. É também uma tentativa honesta de garantir sanidade mental e liberdade de espírito. Para nós, que vivemos numa nação por ora e felizmente irrelevante nesta geografia global do fanatismo, é fácil proclamar que ter medo é ceder aos interesses dos fundamentalistas, é colocá-los ao volante do nosso destino. Na verdade, só não tem medo quem comporta um vegetal no lugar do cérebro ou não preza a vida. Os terroristas são letais também porque não têm medo.
A Europa - e o mundo ocidental, de uma forma geral - enfrenta, pois, este duplo desafio: não quer ter medo dela própria, mas sabe que só tendo medo dela própria (leia-se estar sempre, mas sempre, alerta) pode responder com assertividade ao fanatismo de quem empunha armas automáticas supostamente em nome de um deus.
Treze anos volvidos sobre o 11 de setembro, já não olhamos para estes atos cobardes como algo orquestrado numas montanhas recônditas no Médio Oriente para atingir alvos a milhares de quilómetros de distância. A sofisticação dos métodos ¬ - que tem no Estado Islâmico o expoente máximo - redunda nessa suprema perversão de serem as democracias a "criar" os terroristas.
Os ataques em Paris são paradigmáticos: os três homens ontem mortos a tiro nasceram em França, estudaram em França e pelo menos dois deles foram, nalgum momento, punidos pelo sistema legal francês.
Esta guerra será sempre desigual. Nos meios (foram precisos 90 mil polícias para travar três homens) e nos fins (a vida dos inocentes tenderá sempre a ter mais valor no Ocidente).
A discussão que importa desencadear é esta: vai a Europa escolher o caminho mais curto (fechando fronteiras, expulsando cidadãos, endurecendo as penas de prisão, radicalizando o discurso) ou vai a Europa pugnar pelos valores que fazem dela um espaço de tolerância e de liberdade e combater esta guerra de uma forma implacavelmente civilizada? Qualquer que seja a resposta, espero bem que não se confundam atos criminosos com religião. Aí, sim, estaríamos a fazer o jogo deles.
