Fado, futebol e... turismo. O tripé que sustém a imagem de Portugal no Mundo parece, cada vez mais, ser este. Não que estejamos menos religiosos. Estamos é excessivamente expostos à crença no nosso poder de atratividade turística. Depois dos anos dourados do Euro 2004- e do deserto que se seguiu -, voltamos a estar no mapa das agências de viagem.
A proliferação de companhias aéreas de baixo custo é, não haja ilusões, a grande responsável por um êxito fervilhante que encontra nas dinâmicas urbanas de Porto e Lisboa o seu máximo expoente. Mas não só. Se há setor onde o espírito empreendedor que nos caracteriza se manifestou foi o do turismo. Os portugueses fizeram muito pela vida para que 2014 terminasse com cerca de 16 milhões de visitantes estrangeiros a empanturrar-se de pastéis de Belém e a salivar por mais um cálice de vinho do Porto. Haverá poucas áreas de atividade com níveis de crescimento anuais de 11%. Como Espanha há uns anos, "Portugal marca". Já não somos apenas sol e praia.
Chegados aqui, importa perguntar: e agora, fazemos o quê com o estatuto de nação sexy? Abrimos mais restaurantes, mais hotéis de quatro, cinco e seis estrelas, mais hostels porta sim, porta sim, montamos mais esplanadas, abrimos ainda mais lojas de souvenirs decoradas com Nossas Senhoras e galos de Barcelos? Em suma: surfamos a onda até que a maré pare de nos levar para a costa ou definimos uma estratégia que nos garanta um pé-de-meia a longo prazo, sem, com isso, descaracterizarmos o país, as paisagens, as gentes, as tradições?
Disso mesmo deu conta Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, quando, na entrevista concedida ao JN, alertou para o perigo de, um dia destes, os turistas deixarem, pura e simplesmente, de caber na quadrícula de 40 km2 que constitui a malha urbana da cidade. "Será terrível se os nossos cidadãos se sentirem, subitamente, num território que não é o deles", sintetizou.
Criar uma taxa para atenuar os efeitos da pegada turística pode ser uma das soluções. Até porque há aspetos mais terrenos que é necessário acautelar, como a limpeza e manutenção do espaço público. Mas esta taxa apenas resolve uma parte da equação: permite atenuar no imediato os efeitos "nefastos" da presença massiva de turistas, criando, cumulativamente, uma apreciável fonte de rendimento municipal.
O Porto, como Lisboa, só se manterá atrativo se não perder a essência. E isso só se consegue com moradores. Ninguém se mete num avião para ir visitar uma cidade para ser atropelado por turistas. Nem os mais religiosos.
