"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos!".
Foi com estas palavras singelas que Salgueiro Maia, há 41 anos, mobilizou o pessoal da Escola Prática de Cavalaria de Santarém para formar a coluna que se deslocou para Lisboa onde teve o destacado papel no derrube da ditadura fascista que há 48 anos tutelava Portugal.
A proximidade de mais um aniversário do 25 de Abril leva-me a recuperar as suas palavras que, mesmo sem rigor "científico", colocaram em cima da mesa o essencial de uma encruzilhada que só tinha dois caminhos: manter a situação ou ultrapassá-la, derrubando-a.
Sou um dos que consideram que as próximas legislativas são o verdadeiro assunto que deveria estar a marcar a agenda política. E que, tal como há 41 anos, colocam Portugal numa encruzilhada: manter ou assumir a rutura com as políticas que têm vindo a ser implementadas praticamente desde 1976, e que, apesar de diversas melhorias no país, não conseguiram satisfazer as aspirações e os sonhos que "Abril abriu".
Considero, assim, que o aparecimento de várias intenções de candidatura à Presidência da República, para lá do aspeto folclórico de algumas delas que permitem os cinco minutos de fama aos seus protagonistas, desvia as atenções do essencial e dá folga a um Governo que, apesar de em fim de mandato, está apostado em concretizar, até ao último minuto, os seus desmandos para o país.
Não vou contribuir para este peditório. Mas o aparecimento de Paulo Morais como putativo candidato obriga-me a abrir um parêntesis na minha intenção. É que, durante quatro anos, partilhei a Câmara do Porto com Paulo Morais, tendo ficado a conhecer o seu pensamento político e a sua prática. E vi como foi afastado das listas do PSD/CDS em 2005 pelo seu amigo Rui Rio que, no entanto, e como é seu costume, escondeu a mão, atribuindo esse afastamento a "decisões partidárias".
E creio que Rio (outro putativo candidato) será um dos que menos sorrirão com o aparecimento de Morais. Porque é evidente que depois de conseguir afastar Menezes da presidência da Câmara do Porto (onde teria, certamente, um adversário pronto a divulgar dossiês comprometedores para a sua imagem de rigor e de boa gestão dos dinheiros públicos - mesmo com o "amigo" Rui Moreira é o que se vê, com a denúncia das irregularidades no Aleixo e nos procedimentos de contratação pública!...), Rio passa a ter na corrida alguém que conhece "como as palmas das mãos" o seu modo de atuação. E que chegou a dizer, depois de sair da Câmara, que "Rui Rio já não tira o sono aos empreiteiros"...
Será que, com Paulo Morais, Rio vai manter a pose de Estado ou passará a ter de se preocupar em justificar a sua real prática política? E Paulo Morais deixará de ser "observador" para passar a ser confrontado, também, com as suas práticas enquanto autarca?
Pela minha parte, e como conheço bem os dois e as suas práticas, assistirei da bancada...
