1. O óbvio ululante - O PSD e o CDS, Passos Coelho e Paulo Portas, têm vindo a adiar sucessivamente o anúncio de que a coligação que nos governa se vai apresentar da mesma forma nas próximas eleições legislativas.
Como não domino a tática político-partidária, escapa-me a razão principal destes adiamentos, mas estou em condições, de sanidade mental, para confirmar aos meus queridos leitores que será em coligação que PSD e CDS se submeterão ao veredicto popular em inícios de outubro deste ano da graça de 2015.
Na verdade outra coisa não seria de esperar. Quem aguentou firme (sabe-se lá com quantos elefantes no bucho...) estes tempos dificílimos de governação, mal seria que ficasse sem forças para enfrentar os problemas pequeninos que se põem sempre que se discutem listas conjuntas.
Em boa verdade, quem se aturou estes quatro anos, com arrufos e amuos, facadas e facadinhas, pestanejando aqui e ali, mas sem nunca deitar a toalha ao chão, era o que mais faltava que soçobrasse, agora que é muito mais a meta que se vê, do que o mata que se lembra.
No início era o verbo aguentar que causava polémica. Passos Coelho não vai aguentar Paulo Portas. Paulo Portas não vai aguentar o PSD. O PSD não vai aguentar Passos Coelho. O CDS não vai aguentar o Governo. Chegados aos dias de hoje, vemos que todos se aguentaram e todos aguentaram tudo. É evidente que ninguém aguentava agora, que pequenas questiúnculas partidárias não aguentassem a renovação da coligação no poder.
Nestas eleições, mais do que em qualquer das anteriores, vai estar em julgamento o que foram capazes de fazer os partidos que estiveram no Governo. Claro que também haverá quem se preocupe e até decida o seu voto em função dos programas de futuro, das propostas políticas para os próximos quatro anos, mas no fulcro da questão o que será decisivo será a apreciação daquilo que foi feito nestes últimos anos. Não faz por isso qualquer sentido que essa apresentação e esse julgamento não sejam feitos em comum e em uníssono.
Diria até que, tanto quanto sei e é mais ou menos do conhecimento público, a autoavaliação que os partidos fazem neste momento do campeonato é globalmente positiva, pelo que ninguém entenderia que os louros fossem reclamados em separado, se foi em união que foram atingidos.
2. O cenário berrante e aberrante
Ouço para aí dizer que um dos argumentos contra a ida às legislativas em coligação de PSD e CDS é a dificuldade de constituir alternativas maioritárias de governo, dando-se o caso, que consideram altamente provável, de ninguém ser capaz de ter maioria absoluta.
Na verdade, o que os defensores desta tese queriam era um governo do Bloco Central, apoiado por PS e PSD, liderado pelo partido mais votado e com o outro a fazer de muleta, mais ou menos envergonhada e empenhada, em nome dos "superiores interesses da nação".
Em boa verdade, há muita gente com saudades desse centrão, da "paz" que ele conseguiria e da tranquilidade com que passariam a ser possíveis os negócios e as negociatas públicas.
Esta solução era o pior que nos poderia acontecer. Nem quero sonhar o que seria nos dias de hoje sermos governados por um governo sem oposição minimamente credível e sem qualquer alternativa iminente à disposição.
Imagino um cenário berrante e aberrante, onde os pequenos partidos nasceriam aqui e ali à volta do primeiro que soltasse uns berros contra o estado do país.
Ainda sou capaz de aduzir um argumento mais contra um governo de Bloco Central. Mesmo para governos de uma só cor, como foi o de Sócrates, ou de uma só tendência política, como é este da coligação PSD/CDS, cada vez é mais complicado atrair os mais competentes para sobraçar as pastas mais exigentes. Com um governo de Bloco Central, onde cada medida e cada política estarão sujeitas a um impiedoso escrutínio, maior será a necessidade de ministros políticos e menor será a capacidade de ministros competentes em cada área, que não suportarão passar a vida a perguntar aos coordenadores políticos se aquilo que querem fazer é ou não politicamente correto em nome do sacrossanto Bloco Central.
EMPRESÁRIO
