Muito se disse nos últimos dias sobre Mariano Gago. Abram a Internet e vejam o testemunho de gratidão de muitos, diversos setores e nacionalidades, que espontaneamente querem tornar pública uma homenagem.
Julgo que, entre nós, é caso único num político. E José Mariano era um cientista, um homem nobre e um político.
No contexto atual que vivemos, onde o desafio de repensarmos a Ciência e o Ensino Superior são imperativos de um novo ciclo político, julgo importante refletirmos no segredo do elogio a Mariano Gago, evidenciando traços do seu modo de fazer política.
Mariano Gago tinha visão e convicção: compreendia os sinais do Mundo e tinha uma visão para o país, onde a Ciência, a Cultura e o Ensino Superior eram os elos de uma estratégia política: a fuga ao subdesenvolvimento - à mão de obra barata e desqualificada, ao atraso social, à ausência de expectativas. Sabia e cria que a mudança passava por políticas públicas de democratização e acesso ao conhecimento, e esse é o sentido, entre outros, de programas como a ligação à Internet das escolas, bibliotecas, associações culturais, iniciada em 97/98, ou o programa Ciência Viva. Programas que ultrapassam pela sua efetividade a retórica fácil dos discursos "bonitos" sobre a Educação ou a Ciência.
Mariano Gago trouxe a Ciência e o Ensino Superior para o debate público como compromisso nacional imperioso, agregador de vontades. Os documentos de fundo que cedo publicou e orientaram a sua ação, tinham este cunho: emergiram de uma construção que envolveu e implicou múltiplos atores (Livro Verde para a Sociedade da Informação (1997) ou o Manifesto para a Ciência em Portugal (1990)).
Longe de programas predefinidos, do figurino único insensível à diferença e particularidades, Mariano Gago privilegiava o confronto, a discussão fundadora de novos caminhos, as pessoas.
O modo como fez política é consequência de como pensava e acreditava. As suas próprias palavras ilustram o que me falta dizer:
"O coração da cultura bate ao ritmo da prática humilde e das bibliotecas de bairro, dos grupos corais, do teatro amador e dos pequenos cineclubes; vive do sangue e do esforço de quem se junta e age, sem ficar à espera que alguém se resolva, talvez, um dia, a mudar o Mundo que nos diz respeito" (Homens e Ofícios, 1978).
PRESIDENTE DO INSTITUTO POLITÉCNICO DO PORTO
