Este é um assunto que não merece palavras mansas. Nem meios-termos. Nem equilíbrios semânticos. Merece ser escrito e repetido. Porque é perigoso.
A proposta do PSD, do CDS e do PS para alterar, de alto a baixo, a cobertura jornalística das eleições e referendos só não dá vontade de rir porque foi feita por três digníssimos deputados da nação: Carlos Abreu Amorim (PSD), Telmo Correia (CDS) e Inês de Medeiros (PS).
Já se sabe, agora, que não era para levar a sério. Que esses três deputados, no pleno gozo das suas faculdades, estiveram apenas a juntar umas ideias. E que nada daquilo vai avançar. Mas convém não esquecer que há brincadeiras que acabam mal.
E o que previa essa proposta longamente pensada (porque ninguém pode acreditar que foi feita com base na indigência)? Que os órgãos de Comunicação Social apresentassem "planos de cobertura dos procedimentos eleitorais" a uma comissão mista, que depois as validaria. Ou seja: iriam os jornalistas fazer o quê, com quem, quando, onde, como e porquê?
Claro que esse plano, cuja ideia partiu do PS (disse Carlos Abreu Amorim), que apontava para um "modelo de autovinculação" (leu bem e é Inês de Medeiros a falar), "transparente" (idem), que só "pede a identificação do que os órgãos de comunicação pretendem fazer" (Telmo Correia dixit), foi só um modo de ver as coisas. Nada de visto prévio, aquele do risco azul.
Temos todos a certeza que sim. Como temos a certeza de que os líderes dos respetivos partidos vão tirar a limpo a responsabilização do porquê dos seus três deputados terem perdido tanto tempo para gerar o que geraram.
Não nos podemos esquecer do histórico dos dirigentes atuais do PSD, do CDS e do PS. É que só isso nos dá conforto.
Passos Coelho, também primeiro-ministro, foi dos que mais bradaram contra o sufoco que o seu antecessor instalou nos média. António Costa tem no ADN familiar provas dadas na luta contra o fascismo. E Paulo Portas foi jornalista e diretor do "Independente", o semanário que mais vociferou contra as leis da rolha dos anos 90.
Sabemos que esse histórico nos dá conforto, insiste-se. E que, além da já recusada proposta, haverá ilações a tirar na constituição das listas para deputados nas próximas legislativas. Porque o país tem a certeza de que o seu governo não é feito alternadamente por dois grupos, um de centro esquerda e outro de centro direita, que se põem de acordo no essencial e fazem de conta no acessório.
Mas sabem o que é pior? Os partidos dos extremos, mais pequenos logo mais favoráveis a "planos" para não ficarem de fora, rejubilaram. Não podem é admitir.
DIRETOR-EXECUTIVO
