1. Viva o dinheiro da China - Se me pedissem conselho o que eu diria a todos os empresários - independentemente de serem ou não militantes do Partido Comunista Chinês - que procuram destino a dar às suas fortunas, ele seria simples: invistam em Portugal.
E o mesmo faria aos milionários do Médio Oriente, que o AICEP (e bem) tão afanosamente procura entusiasmar. E a todos os milionários do Mundo com vontade de investir.
- Meus senhores, por favor, ponham o vosso dinheiro aqui.
E partia em "roadshow" pelo Mundo fora à procura desses "extracomunitários" que estranhamente acreditam que Portugal é o melhor destino para as suas economias se crescerem e multiplicarem. Parecem cristãos!
Mas então porque protestamos nós contra o investimento chinês em Portugal. Acaso o investimento de espanhóis (se ainda houvesse), franceses (na Guarda?) ou alemães (isso sim!) é melhor ou nos protege mais?
Quando o presidente executivo do BPI, Fernando Ulrich, disse que lhe fazia muita impressão que, num curto espaço de tempo, houvesse tanto investimento chinês em Portugal, apenas queria dizer que preferia não ter que concorrer com os chineses na compra do Novo Banco. Mas o que é certo é que, quanto maior e mais diversificado for o investimento estrangeiro em Portugal, e maior a riqueza que dele nasça, mais livre, independente e forte fica a economia portuguesa.
Se olharmos com atenção, o dinheiro dos investidores da China - e do Dubai, e do Qatar, e de São Paulo, e de Seul, e de Macau - que não fazem parte das troikas e dos FMI, não é uma ameaça. Antes pelo contrário, ele representa uma liberdade.
2. Costa Obama - Finalmente o líder o PS chegou-se à boca da cena e disse: "I have a dream".
Quando finalmente se dirige aos portugueses António Costa ataca diretamente aquele que é o maior e mais importante dos problemas: a falta de emprego.
O plano macroeconómico do Partido Socialista traz uma novidade e uma alternativa: devemos aproveitar o petróleo barato e os juros negativos para criar mais empregos em vez de continuarmos apenas a aumentar as exportações.
As vitórias eleitorais fazem-se de ideias a que as pessoas queiram aderir mas - e esse é o amadurecimento mais recente da nossa democracia - também de narrativas em que também se possa acreditar.
Se António Costa conseguir demonstrar que é mesmo possível acabar com a austeridade e crescer com base no desenvolvimento do mercado interno, vai dar esperança às pessoas e pode ganhar as eleições.
3. O cego e o coxo - Coelho e Portas estão condenados a ser companheiros até que a derrota os separe. Enquanto ela não chegar, não têm outro caminho que não seja viver juntos. "Apesar das grandes diferenças que nos separam" era assim que dizia o primeiro-ministro na cerimónia de lançamento desta nova AD do século XXI.
A história desta relação lembra um episódio que a minha mãe me contava, em menino, sobre dois mendigos que viviam na minha rua e que rezava assim: De repente, sem que ninguém percebesse porquê, o Pedro, que entretanto tinha cegado, tornou-se amigo do Paulo, um coxo, de quem ele sempre dizia sempre mal e vice-versa. "Nem se podiam ver" - dizia a minha mãe na brincadeira.
Mas o argumento que os juntava era poderoso. Quando se viram velhos, sozinhos e em dificuldades, pensaram melhor e esqueceram-se do que os separava aproveitando aquilo que os unia: o interesse.
O coxo guiava o cego e o cego amparava o coxo. E lá continuaram os dois juntos a subir a estrada chamando sempre nomes um ao outro. Mas também sem se afastarem porque, se o fizessem, era fácil adivinhar o que iria acontecer: um ficava perdido e o outro estatelava-se no chão.
É esta exatamente a mesma lógica que seguem agora os dois partidos e os dois líderes. Sozinho o PSD tem medo de não ganhar - o que custaria de imediato o lugar a Passos Coelho - sozinho o CDS tem medo de desaparecer - o que custaria o futuro de Paulo Portas e sabe Deus mais o quê.
Estarem condenados um ao outro é, mesmo em bom português, irrevogável. Aconteça o que acontecer, em setembro ou ganham ou desaparecem.
