Consta que somos um país de pirómanos e perigosos incendiários movidos por interesses económicos. Pouco interessa que os estudos sobre o perfil dos criminosos detidos demonstrem o contrário: zangas entre vizinhos, alcoolismo e distúrbios psicológicos são as principais causas que explicam o crime de incêndio florestal.
O mito ajuda a aliviar a consciência pelo facto de, mais do que ações intencionais, serem comportamentos negligentes a liderar a origem de incêndios. O discurso desajustado da realidade interessa também, e muito, aos sucessivos governos que ao longo de décadas têm gasto mais do que deviam em combate, por se esquecerem de investir em prevenção.
Não sendo novidade que os fogos são abusivamente usados para incendiar tricas políticas, consegue ser surpreendente a declaração feita na sexta-feira passada pela ministra da Agricultura e do Mar, em entrevista ao semanário "Sol". "Se eu tivesse de decidir em tese sobre quando deveriam ser as eleições, diria, enquanto ministra responsável pelas florestas, que deveriam ser sempre antes do verão. Longe de mim estar a apontar o dedo a quem quer que seja, mas que há um histórico que nos diz, objetivamente, que ano de eleições é ano de mais fogos, há", afirmou Assunção Cristas.
Apontar o dedo dizendo que não se quer apontar coisa nenhuma é feio. Mas pior ainda é fazer malabarismos para lançar suspeitas antecipadas sobre o que possa vir a acontecer no verão. Objetivamente, o pior ano de sempre em área ardida em incêndios florestais foi 2003. Ano de legislativas? Não. Assunção Cristas poderá contrapor que no segundo pior de sempre, 2005, os portugueses foram às urnas. Sim, foram: a 20 de fevereiro, ou seja, muito antes da época crítica de fogos.
Nos dez anos com mais área ardida desde que há estatísticas consistentes, só em quatro houve eleições - incluindo o já referido 2005, com eleições antes do verão. Admitindo que a responsável pelas florestas não se referia às consequências, mas apenas ao número absoluto de ignições, a conclusão é idêntica: nos dez anos com mais incêndios, só em três houve legislativas.
Num país com manchas verdes ao abandono, sem soluções para incentivar os produtores a investir e com algumas espécies em completo desequilíbrio, melhor seria que o Governo se concentrasse em desenhar propostas de ordenamento e exploração sustentável. Quanto a mitos, já temos que cheguem. E saídos da boca de quem tem responsabilidades políticas, travestidos de dados objetivos, só podemos dispensá-los.
