Mário Cláudio recebe esta segunda-feira, às 18 horas, no auditório do Casino Estoril, das mãos do presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, o Prémio Literário Fernando Namora, que lhe foi atribuído pelo romance "Camilo Broca".
A cerimónia ganha especial relevo pelo facto de se inserir na evocação dos 20 anos da morte de Namora, ocorrida a 31 de Janeiro de 1989. Mário Cláudio, pseudónimo de Rui Manuel Pinto Barbot Costa, é um escritor multifacetado, criador de uma vasta obra que abarca a ficção, a poesia, a dramaturgia e o ensaio. Nesta entrevista, feita ao telefone, o autor de "Boa noite, senhor Soares" considera que os prémios "são um elemento importante no universo dos afectos", garante que não irá guiar-se pelo Acordo Ortográfico, diz que a actual situação política é um sinal de que "o país está muito doente" e anuncia que já está a escrever um novo livro, "baseado numa grande figura do século XX".
Hoje, recebe o Prémio Literário Fernando Namora. Já havia sido galardoado com o Prémio Vergílio Ferreira (2008) e o Prémio Pessoa (2004), só para citar alguns. Que significado têm, para si, os prémios?
Os prémios não têm qualquer influência sobre a matéria de trabalho, nem sobre as coordenadas fundamentais da nossa criatividade. Mas têm um efeito psicológico importante. Significam o reconhecimento de uma actividade e, teoricamente, significam também o reconhecimento da qualidade do nosso trabalho. Nessa medida, são um estímulo para a continuidade. E são um elemento importante do universo dos afectos.
Neste momento, estou a falar com o Mário Cláudio ou com o Rui Barbot Costa?
Está a falar com os dois ao mesmo tempo, embora a segunda entidade a que se referiu tenda a desaparecer cada vez mais, porque, entretanto, se avolumou o autor.
É um escritor do Porto que vive no Porto. Considera que conseguiu romper essa barreira geográfica?
Não sou um escritor do Porto. Sou um escritor no Porto, que é uma coisa diferente. O provincianismo vem daqueles que nos ligam a um lugar, como um processo de alimentar o seu próprio provincianismo e exiguidade. Ninguem se lembra de falar de Camilo CasteloBranco como um escritor de Famalicão ou de Eça de Queiroz como um escritor de Paris.
Falou de Camilo e o prémio que vai receber é, justamente, sobre um livro baseado na genealogia do autor de "Amor de perdição". Como surgiu a ideia ?
Resultou daquilo que é uma paixão de há muitos anos que alimento por essa figura absolutamente extraordinária que foi Camilo. Ele está, de facto, num lugar privilegiado do nosso imaginário, como um homem que reflectiu justamente sobre ele e que denunciou, na sua escrita, muitos dos traços mais vincados da portugalidade e do ser português.
Na investigação que fez para este livro, alguma coisa o surpreendeu?
O que me espantou no caso de Camilo foi a coincidência da genialidade com aquilo que poderiamos chamar a marginalidade. Surpreendeu-me a coincidência de ambas as coisas. E o génio é um fenómeno raríssimo, porque, para mim, um génio é alguém que rompe com uma tradição e que cria uma nova.
Lembra-se das suas primeiras leituras de Camilo?
Sim. Acho que li "Amor de perdição" quando tinha 12 ou 13 anos. Na minha família, este era um romance de que se falava muito. Já a minha avó, que nasceu no século XIX, o tinha lido.
Actualmente, também se publica muito, mas poucos são os livros que resistem ao tempo. Como vê este fenómeno?
Com simpatia e com algum divertimento. Devo dizer que muitas vezes me abeiro da obra desses autores, que respeito, como, por exemplo, a Margarida Rebelo Pinto ou a Rita Ferro, como exemplares muito curiosos do ponto de vista antropológico.
Tem aconpanhado o fluxo noticioso sobre fragilidades da política nacional?
Sim. E vejo com preocupação e com algum sobressalto essa espécie de volúpia punitiva. Colocamo-nos um pouco na situação do espectador da bancada do circo romano a ver essas pessoas transformadas em vítimas. Acho isso alarmante. É um sinal de que o país está muito doente - os protagonistas e o público.
Já está a escrever um novo livro?
Estou envolvido num projecto muito vasto em torno de uma grande figura do século XX - nasceu em 1900 e desapareceu em 1988. Uma espécie de grande testemunha do século, mas não posso dizer quem é.
E escreverá segundo as novas regras do Acordo Ortográfico?
Não. Vou continuar a escrever como até agora.
