
José Sena Goulão / Lusa
Com casa cheia e 55 mil festivaleiros a lotar a primeira noite do NOS Alive no Passeio Marítimo de Algés, o arranque do festival, esta noite, deverá conhecer o auge com a presença dos Muse que só atuam mais tarde.
Antes disso, e enquanto a noite chegava, Ben Harper fez-se acompanhar dos Innocent Criminals - o que já não acontecia há sete anos - mas acabou por protagonizar um concerto demasiado morno, sem semear grande entusiasmo no público. Moveu-se quase em piloto automático. Foi competente, é certo, e houve momentos de assinalável encanto (quando recorreu à pedal steel guitar, sobretudo), mas a sensação que predominou foi que o californiano já teve melhores dias.
Horas antes, enquanto a música não começava, os cidadãos, como habitualmente, dispersavam-se pelos stands dos patrocinadores em busca de brindes ou de algum circo. Um proporcionava karaoke filmado e transmitido em ecrã gigante; ao lado, outro até era engraçado: desafiava os festivaleiros para montarem uma bicicleta e pedalar até conseguir, através de uma caranguejola complexa, trepar ao cimo de uma grua. Já o stand dos preservativos Control apelava a uma certa javardice: instigava casais de mamíferos a simularem copulação acrobática em cima de uma enorme bola insuflável perante centenas de primatas.
Um dos primeiros sons a ecoar junto ao Tejo veio dos amplificadores dos Señores, banda basca de Bilbao que aterrou em Algés fruto de um intercambio de artistas com o festival Bilbao BBK Live. "Esta canción es para bailar", anunciou o compatriota de Lopetegui a dada altura - mas a plebe permaneceu alapada no chão, na moleza de fim de tarde, a saborear a sombra da tenda do palco Heineken, pouco ou nada dada a bailados. Os Señores dispararam um power rock que parecia uma colisão de Oasis com Strokes, um som coeso, mas devem ter saído vagamente frustrados com a indiferença dos lusitanos.
Ao mesmo tempo, duzentos metros ao lado, na tenda NOS Clubbing, a escocesa Eclair Fifi descarregou eletrónica a granel ao cruzar vinil com laptop enquanto um enorme ecrã atrás de si projetava imagens espetrais, gotas de água, sombras e redemoinhos para o público mais estratosférico.
Da Escócia chegou também o hip hop febril e retorcido dos Young Fathers - e estes sim, conseguiram levantar todos os corpos no palco Heineken. Com um triângulo de MCs e um baterista atrás, desengatilharam faixas de "White men are black men too" e saíram debaixo de um estrondoso aplauso e muito espalhafato de um grupo de ingleses bezanas com bandeiras do Liverpool.
O NOS Alive prossegue esta sexta-feira e este sábado, com uma programação vasta que propõe nomes como Mumford & Sons, Prodigy, James Blake ou Mogwai, entre dezenas de outros. Amanhã até haverá The Jesus & Mary Chain, que cá estarão para tocarem o seminal "Psychocandy" na íntegra.
Espera-se nova multidão, invasão diária de 50 mil festivaleiros, na esperança que pelo menos um traga uma fisga para mandar calhaus ao drone irritante que por vezes sobrevoa o povo com o seu ruído lancinante de inseto robótico, habilitando-se a ser um moscardo a abater.
