
Em “Heaven knows what” tudo é ao mesmo tempo comovente e chocante
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"Heaven knows what" choca Festival de Cinema de Jerusalém. "Wounded land" aborda o terrorismo com intimidade e é o candidato israelita mais forte.
Todos os filmes importantes são sobre o amor, pelo menos os que vi aqui em Jerusalém. Ao tremendo grego "The lobster" (é um perverso e surrealista protesto social: no futuro distópico, todos temos que viver casados senão a lei transformamo-nos em animais; é macabro mas bravíssimo e termina cheio de ternura), junta-se agora "Heaven knows what" (EAU), dos irmãos Josh e Benny Safdie, um filme devorador e radical cheio de agulhas de heroína.
Híbrido de documentário e ficção austera, "Heaven", que não tem princípio nem fim e quando começa já está tudo a acontecer, segue um grupo de junkies sem-abrigo de Nova Iorque, jovens e muito envelhecidos, e centra-se em dois que se amam, a Harley e o Ilya. A história adapta o livro "Mad love in New York City", escrito pela estrela do filme, Arielle Holmes (ela é como Greta Gerwig, mas melhor), que se interpreta a si própria e reconta a vida que levava (ainda leva?, não sabemos se o cinema a salvou). Harley e Ilya são viciados um no outro, mais ela do que ele, é certo, e, assim como a droga está a destruí-los, também o seu amor, que é insalubre, agressivo, relutante e há-de ser mortal, os vai dilacerar.
Tudo é ao mesmo tempo comovente e chocante e há notas artisticamente inventivas: o uso da música sintetizada, que às vezes se fecha sobre a ação, cercando a realidade até que a deixar sem um grama de ar, é genial; há também cordas melífluas de Isao Tomita. É o mais próximo que podemos chegar do "cinema verité" - e a proximidade é tanta que nos queima.
Menos importante para o mundo, mas fulcral na narrativa de Israel, "Wounded land" (terra ferida), de Erez Tadmor, é o melhor filme judeu visto até agora, numa competição local pautada pela mediania. O filme centra-se em duas famílias de polícias de Haifa e segue-as no tempo de 24 horas que antecedem e sucedem um atentado terrorista (vindo, presume-se, do lado muçulmano de lá). Os dois polícias, que terão filhos pequenos nos estilhaços da chacina, vão confrontar, como se estivessem na esgrima, os seus valores profissionais com os morais - porque a determinada altura o terrorista transforma-se na vítima e quem tem que o proteger são os de Israel que ele acabou de atacar. Intrincado, bem interpretado, desenvolto como drama de ação, "Wounded land" é valioso, mas é improvável que chegue a Portugal.
