
Gonçalo Delgado/Global Imagens
Artista inglês era sem-abrigo ainda há quatro anos e agora está a esgotar todas as salas por onde passa. Casa da Música rendeu-se à sua soul solene. Esta sexta e sábado há ainda concertos em Lisboa e Faro
Se pensarmos bem, a performance não é irónica: Benjamin Clementine e o seu baterista não se apresentam em palco sem sapatos e sem camisa porque querem comentar ou ter uma perspectiva lúdica sobre o que foi a vida crítica de sem-abrigo do artista (emigrado de Londres para Paris com 19 anos, fugido da família, só com 60euro e uma mala cheia de esparguete, Clementine dorme underground em soleiras, arcadas, praças, onde desse e depois corre um ano a viver em hostels de 20euro/dia a dividir quartos com 10, sempre em busca das camas de baixo onde pudesse guardar uma viola meia partida e um órgão barato de ligar à corrente). Não, eles apresentam-se em palco sem sapatos e sem camisa porque é assim que o público anseia poder vê-los - para poder experimentar ao vivo a pobreza e poder participar no processo de superação do artista que começou como homem pobre e na adversidade foi (e nos ventos do metro parisiense) descoberto, amparado, lapidado e agora está ali em consagração, coisa que acontece desde o primeiro minuto em que esta quarta-feira entrou no palco da sala Suggia da Casa da Música, no Porto. Que o artista queira reencenar-se e oferecer essa imagem de si mesmo é outro argumento - até porque ele veste um belo sobretudo de corte Prada e o seu peculiar baterista, jeans arregaçados, gabardine negra de lapelas e cabelo à Cats ou à Massena acentua um certo sentido Off Broadway que a performance parece ter.
A sala Suggia estava lotada (1100 pessoas) e cheia de respeito para ouvir as canções do artista inglês de 26 anos, que foi aplaudido depois com vibrante expectativa e imediata rendição. Com um único disco lançado no início deste ano ("At least for now"), já é muito popular, Clementine: as cinco datas em Portugal estão a correr esgotadas e a sala mais pequena, o Teatro das Figuras em Faro, onde toca este sábado, é de 600 lugares, e a maior é a do Coliseu de Lisboa, que vai encher esta sexta-feira dentro do festival Vodafone Mexefest.
Só piano e bateria é uma conjugação invulgar, pelo menos fora das formações do jazz, e apresentado assim ao mainstream confunde a sua definição de género e a catalogação simples e também por essa raridade o espectáculo de Benjamin Clementine é um sucesso. Mas aquilo que ele toca é pop de câmara, art rock minimal, ópera rock, é uma soul solene ou uma outra nova espécie de avant garde? É expressionismo: "Eu canto aquilo que digo, digo aquilo que sinto, sinto aquilo que toco com honestidade e nada mais do que a honestidade", sublinha o compositor, que confirma "eu sou um expressionista".
Ele é extremamente alto e esguio, é a primeira coisa que vemos quando Clementine entra em palco (não anda, desliza, parece mover-se em vapores silenciosos) e bonito de uma forma alienígena ou tanzaniana, delgado como um Na"vi de "Avatar", maças do rosto muito, mas muito, salientes e brilhantes, de cabelo negro levantado em chispas, um modo muito suave de se mover. Depois vemos que ele é tímido e quando fala connosco põe-se todo atrás de uma voz mínima e impossivelmente branda, uma voz liliputiana e infantil como a de Michael Jackson, dificílima de ouvir quando ele quer conversar do palco para a plateia (tenuidades sobre o tempo, sobre o frio, sobre o jantar, ou só para continuar a repetir o obrigado). Pleno de peculiaridades, a forma como se posiciona ao piano, num banco alto em que fica quase de pé, curvado, com as longas mãos a pingar no teclado, dá praticamente a impressão de estar ali por acaso, e também isso é incomum.
As suas composições são erráticas, ou parecem erráticas sem a rigidez da estrutura convencional da canção, mas é a forma como as interpreta que as faz triunfar, fazendo de cada tema uma concha que sorri para desvelar a pérola engrunada.
Foi referido que a música de Clementine é indefinível, única e impossível de colocar debaixo de um só género. A repetição de temas melódicos e de partes de letras é usada muitas vezes, de que é exemplo melhor a composição "Condolence" e os gritos da "Cornerstone", o que mantém o artista num estado absorvido e meditativo, a apostar no crescendo emocional e na construção erguida para um clímax vigoroso e muito emocional. E depois há a sua voz, o pormenor mais impressivo de toda a sonoridade, uma voz vigorosa de tenor, permanentemente empurrada entre o lírico e o dramático, um tenor 'spinto' como dizem os italianos, de matiz original e dotado de grande flexibilidade tonal, numa voz que podemos calcular entre o terno rugido quente de Nina Simone e o límpido e frio arfar de Antony, vocalista dos The Johnsons. O artista há-de citá-los aos dois como influência maior, a quem junta mais três 'crooners', Nick Cave, Tom Waits e Nick Drake ("Nick é o verdadeiro Drake, é o único Drake que me interessa, não é o outro", disse ele ao JN momentos antes de entrar em palco, onde tocaria depois uma versão de "Riverman", original de Nick Drake de 1969), além, evidentemente, de uma lista infindável de compositores clássicos numa proa liderada pelo minimalismo avant garde do pianista francês do início do século XX Erik Satie, para muitos o pai da música moderna.
A soirée na Casa da Música foi intensa e preenchedora, mas o tempo efetivo de concerto revelar-se-ia relativamente curto, com 50 minutos seguidos e um só encore, entusiasticamente pedido, mas que duraria só mais dois temas, desembocando tudo nesse espaço vagamente impreciso de necessidade em que já nos sentimos saciados mas continuaríamos ali a comer até rebentar. Nada disso: deixou-nos no exato último posto tolerável da carência em que já só ansiamos pelo rápido regresso deste opíparo novo menu.
