Jardim Gonçalves considera que a religião é "um brinde e uma graça de Deus". Ainda não tem um mês quando é baptizado por vontade de um pai que "à moda dos homens daquele tempo vai à missa ao domingo" e de uma mãe devota, que "ia sempre à missa e não faltava às novenas nos meses de Maria".
Fez a primeira comunhão, tem como padrinho de crisma um sacerdote da paróquia onde vivia e de baptismo os tios. Pela vida fora mantém-se nas “beatices” que desde jovem pratica e que mantém em Coimbra, no CADC, no Porto e como presidente da Junta Central de Acção Católica, a cúpula máxima, em Lisboa. Já casado participa nas equipas de Nossa Senhora, um movimento vindo de França, e em Angola esteve nas equipas de casais e em cursos de preparação para o matrimónio. É Francisco Sá Carneiro e a mulher, Isabel, que dá ao casal Assunção e Jorge o curso de preparação para matrimónio. Ainda recorda “uma senhora muito querida” que lhe deu catequese. Tem um irmão padre, a quem a mãe não facilitou a vida na vocação quando quis ir para o seminário por ter tido um irmão que ia ser padre mas que com a revolução de 1910 desiste da carreira religiosa.
É no exílio em Espanha, em 1975, que ao procurar um colégio para os filhos encontra a direcção espiritual da Opus Dei. Tudo começa com o convívio com um casal que morava no mesmo prédio e que também tinha um filho no colégio. Após uma aproximação, a sua mulher participou de um retiro e em seguida é o próprio que também faz a experiência: “Tive uma sorte enorme porque quem prega esse retiro é um sacerdote muito conhecido e a partir desse momento acompanhei sempre a obra e dela recebo catequese”.
Os católicos da Opus Dei são mais empenhados?
Não, têm é mais oportunidade de receber formação. Depois, cada um é o que é e depende dele e das circunstâncias. Têm toda a liberdade para fazer asneiras, a começar por mim.
Tem-se ideia que na Opus Dei se protegem muito uns aos outros. É um mito?
Sim! Nós andamos em retiros e nem sabemos quem é o sujeito ao nosso lado. Uma vez, numa entrevista na televisão, o Miguel Sousa Tavares disse-me: “na Opus Dei só há senhores ricos”. Então perguntei-lhe se sabia os nomes dos filhos do pai do primeiro-ministro? Na altura ficou muito zangado e só disse “Como?” e durante uns segundos ficámos em silêncio. Na televisão, um segundo de paragem é uma eternidade. E eu voltei a perguntar como é que se chamavam os filhos do pai do primeiro-ministro? “Um deles é Aníbal [Cavaco Silva]”, disse. E os outros? “Os outros, não faço ideia”. É o que acontece na Opus Dei, expliquei. Conhece-se o engenheiro Jardim Gonçalves porque é presidente do banco e não por ser da Opus Dei.
Esta escolha religiosa influencia-o como banqueiro?
Estamos mal se a atitude religiosa não influenciar a conduta da pessoa no seu dia-a-dia mas a formação religiosa não diz “escolhe aquele para teu secretário” ou “promove o outro”. A pessoa ou tem carácter ou não.
O sistema capitalista tem exigências que contornam a fé!
Mas não exige asneiras. É como as offshores, não têm como consequência o crime. A pessoa para ser honesta e íntegra não tem de ser religiosa mas quem tem formação religiosa e uma perspectiva de vida eterna terá mais cuidados.
Alguma vez privilegiou alguém?
A minha grande preocupação é ser justo.
Mas o dinheiro e a religião é uma mistura explosiva.
Não é desde que se dê bom uso ao dinheiro.
