Houve quem alugasse táxis para a deslocação ou carrinhos de compras por dez euros. "Vale tudo, porque compensa", dizia-se nas filas de espera. Compensa esperar para entrar, esperar para pagar, esperar para sair." Lutar para não ficar de fora.
O grupo Jerónimo Martins lançou esta terça-feira, mais ou menos em segredo, uma promoção inédita: pague metade de tudo o que levar. A informação espalhou-se de manhã e, ao início da tarde, a maioria das prateleiras ficou vazia: azeite, leite, arroz, açúcar e massas foram os primeiros bens a esgotar. Fraldas e enlatados, também. Os bens perecíveis, fruta, legumes e iogurtes não tiveram saída.
Em tempo de crise, os portugueses fizeram uma escolha: encher a dispensa com o que não se estraga. A quase totalidade das lojas do grande Porto fechou muito antes das 18 horas, hora oficial de encerramento, por ruptura de stock ou por intervenção policial motivada por desacatos na corrida aos saldos na alimentação.
Truques para comprar a dobrar
Depois de uma tentativa gorada para entrar na loja do Padrão da Légua, em Matosinhos, uma das primeiras a fechar por "falta de segurança", o casal Azevedo, Armando e Lurdes, seguiu para a Senhora da Hora. Entrou perto das 13 horas, saiu mais de quatro horas depois. Com eles levavam a intenção de gastar cem euros - gastaram 600. Ou melhor, 300. "Reconheço que comprei muitos produtos supérfluos, sobretudo detergentes e vinhos, algumas reservas que há muito tinha deixado de beber", admitiu o empresário de metalomecânica, distribuindo as compras pela mala do carro enquanto trocava um sorriso com a mulher: estavam "cansados", mas "felizes" por terem conseguido entrar. Àquela hora, à porta da loja, menos afortunada, uma pequena multidão gritava, reclamava, exigia falar com o segurança, com o gerente, pedia o livro de reclamações que aparentemente ninguém viu. Lá dentro, conta Armando, "a desorganização foi total.