Durante cerca de dois anos, Pedro Santana Lopes e José Sócrates estiveram frente a frente, todos os domingos, no Telejornal da RTP. Ambos comentavam a actualidade política e era, nessa condição, que eram escutados semanalmente por milhões de portugueses. Antes de chegarem aos debates na RTP, Santana Lopes e José Sócrates já eram muito conhecidos do público em função das respectivas carreiras políticas. Digamos que a televisão acrescentou-lhes notoriedade e deu visibilidade às suas ideias. Santana Lopes e José Sócrates, como homens inteligentes que são, souberam tirar partido dessa oportunidade televisiva.
Com Santana Lopes e José Sócrates, a televisão antecipou a História muito antes dos factos acontecerem.
Santana Lopes e José Sócrates estão agora a ser criticados pelo facto de terem passado pela TV e de serem figuras mediáticas. Mas a verdade é que ambos estão a surpreender pela força dos seus argumentos o que, em política, é sinónimo de credibilidade.
Santana Lopes conseguiu fazer a quadratura do círculo: não fez rupturas nem com o cavaquismo nem com o barrosismo. O Governo de Santana reúne políticos com passado e técnicos que se destacam no presente pela sua competência. Santana Lopes procurou associar a credibilidade política e a credibilidade técnica.
José Sócrates parte como vencedor na corrida para a liderança do PS. É um homem com mensagens claras e que traz ao Partido Socialista um estilo de modernidade e uma lufada de ar fresco.
São estes dois homens, figuras com bons desempenhos na Comunicação Social, que vão dar cartas nos próximos anos em Portugal.
Não é mais possível assobiar para o lado, meter a cabeça na areia e fazer de conta que não vivemos num ambiente mediático onde o escrutínio da opinião pública através da Comunicação Social é constante. A forma como se comunica uma ideia, uma decisão, um programa, uma imagem são elementos decisivos na comunicação política. No entanto, a comunicação não opera milagres. A linguagem política exige clareza, eficácia mas, principalmente, substância. Os pretensos bons falantes que vivem da imagem e para a imagem, mais tarde ou mais cedo, são "desmascarados" pelo espectador-eleitor. Alguns dirão que existe o risco dos eleitores e dos partidos serem levados a escolher dirigentes partidários apenas porque "passam bem" na televisão. É neste prisma de análise que se coloca uma certa Esquerda. Na verdade, a questão não é desprezível. Antes pelo contrário. Há muita doutrina sobre os efeitos perversos de uma mediatização da vida política desregrada e discricionária. Mas é importante também sublinhar que a maturidade dos públicos/cidadãos eleitores - na terminologia utilizada pelo sociólogo francês Dominique Wolton - mostra que as pessoas não são facilmente enganáveis e que, mesmo que o sejam durante algum tempo, acabam por despertar para a "maquiagem" de ideias ou de personalidades, utilizando o voto como arma de punição.
Voltemos, então, ao mediatismo de Santana Lopes e de José Sócrates. A circunstância de ambos serem figuras mediáticas não deve, por si só, desmerecer sobre a capacidade que ambos terão de governar o país ou de liderar a Oposição. Só por preconceito é que alguns olharão para os políticos mais mediáticos de soslaio. Ser mediático não é um defeito. É uma qualidade que corresponde às exigências do nosso tempo desde que os media sejam correctamente utilizados, no respeito pelos princípios da liberdade e do pluralismo.
Judite de Sousa escreve no JN, semanalmente, aos sábados
