Confrontado com uma baixa de natalidade recorde e um envelhecimento populacional acelerado, o Japão debate-se com este dilema: perder a população, conforme previsto nas estatísticas, ou contrariar a tendência "despertando nos japoneses o gosto por fazer filhos".
Revelada recentemente pelo Ministério da Saúde (MS), a taxa de fecundidade no Japão - 1,29 crianças por mulher - teve o efeito de uma bomba, num momento em que o país debatia uma impopularíssima reforma do sistema de aposentações.
Contrariando as previsões governamentais, trata-se da taxa mais baixa de toda a história do país. Os demógrafos estimam que, até ao ano 2050, a população japonesa passará de 127 milhões para 100 milhões de habitantes. Depois, até ao ano 2100, a população decrescerá para 64 milhões, acabando por se extinguir passados alguns séculos.
Segundo Tetsuo Yoshioka, director do Departamento contra o Decréscimo da Natalidade do MS, figuram, entre os factores que se apontam como responsáveis por este fenómeno, os casamentos tardios, a enorme progressão do celibato e a queda constante (desde1990) da natalidade entre os casais. Takayo Yamamoto, especialista em comportamentos e modos de vida, afirma que, "depois de aprovada a lei da igualdade de oportunidades de emprego entre homens e mulheres, em 1985, estas têm a possibilidade de trabalhar e de ganhar a vida, o que não as estimula ao casamento ou a ter filhos". Ainda segundo declarações de Yamamoto a Raphaëlle Marcadal da agência France Press, acontece que "os pais, ao contrário daquilo que sucedia tradicionalmente (quando o casamento era tido co- mo a dignificação da vida das filhas) não as aconselham a casar". Daí verificar-se uma queda notável no número de casamentos, nos últimos dois anos.
"No Japão, não se ajusta fazer filhos e criá-los, sem se ser casado. Ainda é uma situação muito mal vista. O casamento é condição para se estar integrado na sociedade enquanto pais", sublinha um responsável do MS. Mas, para Junko Sakai, editorialista e autora de um intitulado "Decréscimo da Natalidade" (2003), a queda brutal da natalidade é reflexo de um individualismo crescente no seio da sociedade japonesa. "As mulheres tornaram-se mais individualistas e os homens não estão dispostos a sacrificar a liberdade no altar do casamento e da paternidade", diz a escritora, que sublinha "a angústia com que os japoneses se confrontam".
"Sem modelos de referência, as mulheres sentem-se perdidas e não conseguem situar-se enquanto mães. O Japão é um dos raros países onde educar uma criança é tido mais como um sacrifício do que como um prazer", lamenta Junko Sakai.
"As mulheres pensam de mais, em vez de deixarem falar os instintos", opina a senhora Yamamoto. No Japão, a idade do casamento passou dos 27 anos, em 1975, para os 28,8 anos, em 2000, para os homens, e dos 24,7 anos para os 27 anos para as mulheres Ao mesmo tempo, entre 1975 e 2000, a percentagem de homens solteiros aumentou de 48,3% para 69,3%.
No capítulo das mulheres, os números são ainda mais esclarecedores. Durante o mesmo período e para a mesma faixa etária, a percentagem de mulheres solteiras passou de 20,9% para 54%. Perante a catástrofe demográfica, o Governo aprovou uma lei (a entrar em vigor em 2005), de "apoio ao desenvolvimento das novas gerações", para "despertar o gosto por fazer filhos" e "incentivar a emancipação dos jovens".
