Enquanto os vivos de-ambulam sem rumo pela cidade transformada em monte de pedras, mergulhada no fogo e na lama - e ainda fustigada, de quando em quando, por réplicas - Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, homem pragmático, contempla o caos e delineia estratégias. O rei, na Ajuda, refugiado numa barraca, treme de medo. Pombal toma as rédeas. D. José dá-lhe carta branca, tornando-o super-ministro.
A resposta é rápida, enérgica, implacável, como tem de ser. Carvalho e Melo gere a situação com o mesmo pulso firme com que vem impondo as suas reformas ao país. Agora, até os actos mais cruéis estão justificados.
O lema "enterrar os mortos, cuidar dos vivos" é levado à letra. Mas os cadáveres são imensos, multiplicam-se a cada dia, sempre que os escombros são revolvidos. Para evitar epidemias, boa parte é levada para mar alto e atirada à água, atada a pesos. Sem rezas ou mais demoras.
Em terra firme, os sobreviventes, ricos e pobres, acotovelam-se no Terreiro do Paço, onde peixe, farinhas e outros alimentos, vindos sobretudo da margem Sul, são distribuídos. Os bens de primeira necessidade são isentados de impostos e fixam-se preços para evitar a especulação. Proíbem-se construções definitivas. Um mês depois, já se trabalha no inventário dos edifícios destruídos e no levantamento de registos de propriedade, bairro a bairro.
O fogo, porém, não desarma, tal como as réplicas. As pilhagens tornam-se uma dor de cabeça. Pombal manda vir, logo nos primeiros dias, polícias de província, homens para apagar as chamas e juízes desembargadores. Ordena que sejam erguidas dezenas de forcas entre os escombros fumegantes. Os corpos dos salteadores ficam pendurados por longo tempo, para servir de exemplo.
Os ladrões mais prestimosos são condenados a trabalhar em prol da reconstrução. Tudo o que não tem salvação é demolido, aproveitando cantarias. É preciso desobstruir estradas, fazer chegar a Lisboa madeiras, pedra e outros materiais de construção. Manda-se chamar homens de ofícios que, mais tarde, darão o nome a muitas ruas de cidade.
Os comerciantes ajudam a financiar a reconstrução, doando à Coroa quatro por cento do valor de todos os bens importados. Consegue-se angariar uma fortuna. Inglaterra, França, Áustria e Espanha fornecem víveres e materiais para as obras.
No gabinete de crise, Pombal, frenético, rodeia-se de conselheiros, arquitectos, estrategas, engenheiros militares. Ninguém sabe ao certo se é o Marquês ditando orientações do rei ou da sua própria lavra. Há pilhas de papéis, plantas, registos, inventários. Chegará outro, com uma lista completa, paróquia a paróquia, relatando danos nas igrejas, espólio perdido, mapas de moradores. Lá fora, Lisboa é um imenso estaleiro rodeado de barracas.
Amanhã
250 anos depois
Como está Portugal preparado para uma nova catástrofe
