
"Não se entende. Tantos protestos no último ano e meio, tanto povo a pedir a mudança e, pelo que parece, nada vai mudar" - comenta António de Almeida Cardão, Conselheiro das Comunidades Portuguesas no Rio de Janeiro, Brasil, que vive, domingo, o dia das eleições presidenciais.
Com o desprendimento de quem não vota, Cardão fala da "apreensão da comunidade portuguesa no Brasil em relação às eleições", em particular, a empresarial, que teme as consequências do período pós-eleitoral. O responsável defende que o Governo de Dilma Rousseff foi "populista" e "arruinou muitas empresas estatais".
No mesmo sentido alinha-se Maria Monteiro, com 50 dos seus 74 anos vividos no Brasil: "Se a Dilma ganhar, não tem jeito". O que mais desagradou a portuguesa na administração do Partido Trabalhista foi "a atribuição exagerada de subsídios estatais" e avança como exemplo "de uma mãe com cinco filhos, que recebe tantos apoios que nem precisa de trabalhar!"
Maria Monteiro emigrou para o Brasil, "pátria do seu coração", pelo mesmo motivo pelo qual Adriana Moraes, de 45 anos, veio do Rio Grande do Sul para o Porto, há quase seis anos. O amor. "Vim fazer o mestrado e apaixonei-me", conta a presidente da Associação Mais Brasil, uma organização sem fins lucrativos que apoia a comunidade brasileira na região do Porto.
Adriana Moraes condena os atos de violência que marcaram a campanha, mas entende que "se alguém não os ou ouve pela palavra, terão que ouvir pelas ações". A educadora de infância, casada com um militar português, alerta para a dificuldade de "governar um país tão grande e com tantas diversidades culturais" e, por comparação à realidade brasileira, elogia "a saúde, a educação e os transportes públicos portugueses - são fantásticos".
Já Patrícia Caires, de 36 anos, ficou espantada com a segurança nas ruas quando chegou a Oliveira de Azeméis, há cerca de quatro anos. Veio com a filha de Teixeira de Freitas, Baía. Por amor. Não pretende regressar. A voluntária da mesma associação, que terá que justificar o seu voto a partir de Portugal, desencantou-se com os trâmites da política na mesma proporção com que "aumentou a violência nas ruas". Elogia as mudanças introduzidas pelo Executivo de Lula da Silva e diz que, "apesar de não gostar da Dilma, está até satisfeita com o trabalho dela".
Aécio Neves, candidato do Partido Social Democrata Brasileiro, é o que mais consensos reúne entre os portugueses e brasileiros ouvidos pelo JN. Já Marina Silva, cuja queda se acentuou nas sondagens mais recentes, foi uma questão de "comoção popular", defende António Cardão, recordando a morte de Eduardo Campos. "Depois o povo começou a entender isso".
