
Paulo Spranger/Global Imagens
José Sócrates e Pedro Passos Coelho trocaram esta noite argumentos sobre a responsabilidade da crise política e do pedido de ajuda externa, mas conseguiram não falar sobre as consequências deste empréstimo na vida dos portugueses.
O primeiro-ministro demissionário voltou a acusar Passos Coelho de ter sido "absolutamente irresponsável e contrário aos interesses do país" na decisão de chumbar o PEC IV e de abrir caminho à necessidade de ajuda externa, "uma fantasia" que o líder do PSD diz ter sido criada por José Sócrates.
"O senhor vai a votos como primeiro-ministro, mas é espantoso a dificuldade que tem em discutir as suas responsabilidades", disse Passos Coelho, referindo-se várias vezes à herança dos 700 mil desempregados, aos cortes nos salários e nas pensões sociais.
Sócrates tentou várias vezes virar o jogo a seu favor, assumindo a responsabilidade das "medidas difíceis" que, uma vez mais, justificou com a necessidade de fazer face à crise internacional. "Nunca virei a cara às dificuldades, mas o senhor é responsável pela abertura de uma crise política, que levou Portugal a pedir ajuda externa", disse, insistindo em confrontar o líder do PSD com as suas propostas de revisão constitucional, designadamente com o fim da justa causa nos despedimentos e com a introdução de co-pagamentos na Saúde, acusando-o de querer "destruir" o Serviço Nacional de Saúde.
O debate desta noite na RTP também ficou marcado com o facto de Sócrates ter lido parte de um relatório assinado por Passos Coelho enquanto administrador da Fomentinvest (de 2010, em relação à situação económica de 2009) em que este último assumiu a dimensão internacional da crise financeira portuguesa.
"Não vale a pena vir com esse pequeno truque", respondeu Passos Coelho, insistindo que a situação de pré-bancarrota do país deve-se aos seis anos de Governo de José Sócrates. E acusando o primeiro-ministro de não ter pedido ajuda antes "por estar preocupado com a sua imagem.
"É o senhor que está agarrado ao lugar de primeiro-ministro. Não sou eu que tenho pressa de lá chegar", disse-lhe.
Pedro Passos Coelho confrontou Sócrates com posições assumidas no último ano e meio, tais como: Portugal "não aumentará impostos para fazer a consolidação orçamental" (Fevereiro de 2010); "não será preciso reduzir salários para reduzir o défice" (16 de Junho de 2010); e rejeição da possibilidade de o IVA aumentar este ano.
Sócrates ripostou que Passos Coelho acabara de citar declarações suas antes da crise das dívidas soberanas e voltou a puxar o debate para o terreno das posições assumidas pelo presidente do PSD no passado recente.
"O senhor acusa-me de querer discutir o que os outros pensam, mas isso não é nenhum truque. Lamento muito, mas o senhor vai ter que discutir comigo o que o senhor pensa e o senhor propôs. Ninguém ganha eleições só fazendo críticas", contrapôs o secretário-geral do PS.
