
Pires de Lima diz que em "circunstância alguma" será "carta no baralho na sucessão" a Paulo Portas
Fábio Poço / Global Imagens
Ministro da economia assegurou que lutará pela moderação fiscal e que não está corrida à sucessão no CDS
António Pires de Lima, 52 anos, fez, na semana passada, o que diz nunca fazer: voltou ao lugar onde foi feliz. Como ministro da Economia inaugurou a nova sede da cervejeira Unicer, investimento de cem milhões de euros, que o próprio lançou, enquanto gestor, em 2012. "Este investimento torna a Unicer numa empresa à prova de bala na Europa", enalteceu.
Num momento em que se discute a separação entre política e negócios, a ambiguidade da sua presença poderia ser arriscada, mas o governante que diz gostar que olhem para ele "como uma pessoa que ganhou independência fora da vida política", apareceu em Leça do Balio sem rede nem pruridos. "Foi a primeira vez que os meus assessores não se meteram no meu discurso", confessou publicamente com o mesmo à vontade com que mais tarde afirmaria ao JN: "Não faria sentido não vir cá só porque trabalhei aqui".
Veio e deu-nos boleia. As viagens, curtas, entre discursos, estavam previamente combinadas - os temas da conversa, não. Ele achou que falaria "só como ministro", notou, mas não levantou entraves aos desvios temáticos. Falou dos dossiers complicados do país e do Porto, da coligação no Governo, da sucessão no CDS e do seu próprio futuro, fechando a porta à política. "Terminada esta missão, regressarei à minha vocação natural de gestor".
Como é a sua relação com o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira?
Pessoalmente, é boa. Como ministro, não pudemos dar mais apoio às corridas da Boavista. Rui Moreira não gostou, mas aceitou. E depois tenho dois ou três dossiês...
... complicados...
Não diria complicados, mas menos consensuais. É impossível discutir alguns assuntos sem que suscitem divergência de posições. Mas não sinto que tenha algum ponto conflituante com os interesses do Porto.
A concessão de transportes é o mais complexo?
Não é complexo, mas é exigente. A posição do Porto não é especialmente nova. Lisboa manifestou pretensão parecida. Mas não basta querer, é preciso ter condições que passam pelo currículo, experiência na gestão de transportes, pela solidez financeira e pelas garantias.
E a indemnização pelos terrenos do aeroporto?
Sobre isso não me pronuncio, até porque não depende do Ministério da Economia.
Que leitura fez do incidente entre Rui Moreira e o vereador do CDS?
Foi um episódio de verão. Dizem-me que está ultrapassado e eu acredito.
Dez minutos depois da saída da Unicer, chegámos ao Sheraton. O ministro tira o casaco, pede uma Água das Pedras, "fresca, com limão". A escala no hotel, pós almoço, não era para descansar, muito menos para continuar a entrevista, avisa o assessor. Era para "rever a intervenção" que haveria de fazer na Casa de Chá da Boa Nova, outra vez em Leça. Mas Pires de Lima é surpreendentemente descomplicado. Abrevia caminho, retoma-se a conversa. Ainda sobre o Porto, onde voltará esta semana para apresentar o plano estratégico para o setor têxtil e as linhas orientadoras para o turismo em 2015.
Estará preso por semanas o anúncio da administração do banco de fomento. Que diferença fará a instituição nesta altura?
É uma instituição anticíclica, tenderá a ser mais ativa quando a economia estiver estagnada. Seria fantástico que tivesse sido criada em 2010. Não é uma varinha mágica, mas terá um papel importante na gestão dos fundos reembolsáveis do novo quadro comunitário, na contratualização de crédito às pequenas e médias empresas (PME) e no lançamento de instrumentos para a capitalização das PME.
Por não ser uma varinha mágica, não pode suscitar algum desapontamento?
Só se defrauda quem achou que dinheiros públicos através de crédito bancário poderiam ser o principal motor de uma agenda de crescimento depois da crise que vivemos
O Finantial Times (FT) elegeu o Porto como uma das melhores cidades do sul da Europa para investimento estrangeiro. Pode ser um marco na viragem económica do país?
No turismo, nada acontece por caso. O FT refere-se ao Porto não só como capital do Norte, mas do noroeste peninsular - e isso é o mais relevante. Porque, do ponto de vista das infraestruturas, o Porto começa a funcionar como um polo que traz cada vez mais gente da Galiza. Há um movimento turístico a que é impossível ficar indiferente. E isso acontece também muito por via das companhias low cost, muitas delas sem bases em Espanha.
Há um Porto a caminho de recuperar o título de capital do trabalho?
Depois disso, houve uma fase, na década de 90, em que se desvalorizou o poder industrial do Norte, dizia-se que estava condenado ao desaparecimento em função da globalização. O Porto suportou esse desdém com caráter, com um silêncio que poderia ser magoado, mas sobretudo mostrando resiliência. E ressurgiu com uma indústria organizada - no têxtil, no calçado, no mobiliário -, com uma pujança e com elementos de valor acrescentando que não tinha há vinte anos, provando que continua a ser uma força económica neste processo de reindustrialização. Não só nos setores tradicionais, mas também com clusters mais ligados à tecnologia.
Pires de Lima ilustra tudo o que diz com números, até porque os números lhe têm sido favoráveis. "Portugal está a crescer" não se cansou de dizer antes de regressar a Leça, onde discursaria sobre industrias criativas. Sobre o CDS, teve mais cautelas. Não queria "misturar planos", a conversa era "com o ministro e não com o militante". Ainda assim, cedeu a uma espécie de intervalo para abordar o tema em que se coloca "fora do baralho".
Há uns anos disse que o seu discurso tinha pouco acolhimento no CDS, porque é menos conservador que o partido. É o que sente no Governo quando fala de moderação fiscal?
Referia-me aos costumes. No Governo, é uma questão de possibilidades. Falei em moderação fiscal, pela primeira vez, no debate da nação. E mantenho que devemos procurar executar um quadro, a nível fiscal, mais amigo do trabalho.
A sua posição é conhecida, gostava é que concretizasse o timing.
Só posso ter uma posição mais fundamentada no final da discussão da proposta do Orçamento do Estado para 2015. Se partirmos para a discussão achando que não é possível, não será possível. Porque haverá sempre despesa que justifica a impossibilidade. Se partirmos para o debate tendo como objetivo que seja possível, é mais provável que possa vir a ser. Quem quer muito, que é o meu caso, tem que adotar esse discurso mais construtivo e voluntarista.
Mas esse discurso há-de estar ancorado num conjunto de argumentos...
Estou a partir do princípio que vamos terminar o ano com um défice de 4%, que em função da reclassificação do PIB passará para 3,9%. O esforço que teremos de fazer para ficarmos abaixo de 3% no próximo ano estará entre os 1500 e os 2500 milhões de euros. Estou a partir do pressuposto que a economia vai continuar a crescer no próximo ano (este ano o crescimento ajudou em mais de 1,5 milhões de euros do que estava orçamentado) com uma tipologia não muito diferente da deste ano. Ou seja, o privado a recuperar (este ano há mais mil milhões de euros acima do orçamentado), o desemprego a cair (já se pouparam 400 milhões de euros em Segurança social). E há ainda a introdução da fiscalidade verde. Assim, será possível iniciar o trajeto de moderação fiscal ao nível do IRS.
Todas as variáveis positivas não dependeram diretamente do governo. A única que dependia, que é a contenção de despesa, está em falta...
Está em falta entre aspas, em parte por inerência das decisões do Tribunal Constitucional.
Não só, como é sabido.
Certo, há um esforço reforçado de contenção que o Governo tem de fazer em 2015.
Como explica que tanto tempo depois desse debate da nação não haja sintonia de posições com Maria Luís Albuquerque?
Moderação fiscal pode ser interpretado de várias maneiras. O governo remeteu a posição final para a discussão do OE. Logo se verá. O ponto fundamental é: se tentarmos pode ser que seja possível; se não tentarmos nunca será possível.
É inglório fazer um discurso que corre o risco se não se verificar, sendo este o último ano da legislatura?
Na reforma do IRC, fiz o discurso, tive o prazer de acompanhar a discussão, e foi altamente compensatório. No IVA da restauração, não aconteceu, mas pelo menos as pessoas sabem que tentei. No IRS, acho que vai acabar por acontecer. Espero que mais cedo do que tarde. Portanto nunca é um esforço inglório lutarmos e darmos a cara por aquilo em que acreditamos e no final sujeitarmo-nos à deliberação.
Está também a tentar outra vez vender a TAP, dizendo que pode privatizar 49%, 100% ou nada. Como pode defender tanto a importância da privatização e ao mesmo tempo equacionar o contrário?
A TAP vive na iminência de ser privatizada há 14 anos. O dr. Jorge Coelho, quando contratou Fernando Pinto, já era na pespectiva de lançar a privatização. Portanto, a TAP não tem deixado de existir, de sobreviver, e em alguns casos até de crescer, apesar de estar a ser privatizada. Defendo que não deve ser privatizada à pressão, mas entendo que há, dentro desta legislatura, uma janela de oportunidade para o fazer. Isto implica uma decisão do governo nos próximos meses. A TAP beneficiará se for bem privatizada e se o seu valor estratégico for protegido, o que tem a ver com a ligação que faz a África e às Américas, para além da gestão de todos os outros destinos. Do ponto de vista do crescimento poderá ganhar uma dinâmica maior de tiver mais acesso a capital e uma gestão menos restringida a regras da administração publica.Mas, se não acontecer, continuará a viver de acordo com as condicionantes que tem, sendo, ainda assim, uma das cinco empresas mais seguras do mundo e, este ano, a crescer 7%. O assunto ainda não está agendado para conselho de ministros. Ou será dentro de um mês, ou depois entramos na discussão do OE, no ano de 2015, num período que se começa a aproximar as eleições e talvez seja menos curial lançar a privatização.
Ou seja, pode deixar de ser ministro antes disso?
Sim.
Tem defendido a venda rápida do Novo Banco. Já fez contas ao impacto que os estilhaços do desmoronamento do BES podem provocar na economia?
Fui a primeira pessoa a falar de adversidades, no final de julho. Dei nomes às coisas, disse que eram dispensáveis, fui até criticado por isso. No fim, isto é um braço de ferro: há forças que puxam positivamente pela economia e outras que puxam negativamente. Mas acredito que o custo para os contribuintes será muito provavelmente zero. Nunca tendo falado em calendário, entendo que as circunstâncias em que o banco está, beneficia em encontrar a sua casa final, em termos de accionistas, de uma forma rápida. Isso não significa vender à pressa, mas os calendários conhecidos, até ao verão, são razoáveis. Conheço bem o Eduardo Stock da Cunha, é uma pessoa pragmática que tem bem clara a sua missão: proteger o activo e concretizar a venda.
Começa novamente a discutir-se a sucessão de Paulo Portas no CDS. Olha para a liderança como uma possibilidade?
Há escolhas na vida que só se fazem uma vez. Já disse que no fim desta missão no governo, a minha vida política executiva termina. Quero respirar fundo, descansar, se possível viajar, e depois voltar a trabalhar nas empresas.
Acaba com esta legislatura independentemente das próximas eleições?
Exatamente. Quando terminar a missão o governo, regresso à minha vocação natural, ao meu ADN, que é ser gestor.
Isso significa que exclui também a vida partidária?
Tenho dito isso várias vezes e tenho sido coerente: abandonei a presidência do conselho nacional no último congresso e renunciei à presidência da Assembleia Municipal de Cascais há duas semanas. O tempo não volta para trás e quando cumpro uma etapa passo à próxima - e a próxima nunca é um regresso. Fala-se da sucessão de Paulo Portas há muitos anos e a verdade é que, por vontade dele e dos militantes, ele tem-se mantido. De qualquer forma, em circunstância alguma serei carta no baralho dessa sucessão.
