
Uma radioterapia que pode eliminar o cancro numa única sessão, mesmo com o tumor já espalhado, estará em breve disponível em Portugal. O procedimento será possível através de uma máquina que ficará instalada na Fundação Champalimaud.
O equipamento, que a Fundação irá receber ainda este ano, permitirá fazer radioterapia de dose única, tratamento que requer um elevado nível de precisão e que poderá ser feito em poucos minutos e sem qualquer toxicidade para o doente, segundo explicou, em entrevista agência Lusa, o oncologista Carlo Greco.
"É o mais avançado equipamento no mundo. Será absolutamente único em Portugal e, na Europa, há muito poucos. Mas a máquina que chegará em Dezembro vai ser equipada com ferramentas especiais que a tornam única no mundo", afirma o director da área do cancro da Fundação Champalimaud.
Carlo Greco, que considera o cancro como um dos piores problemas sociais da actualidade, lembra que, este ano, os tumores serão já a primeira causa de morte no mundo. Mas frisa que a taxa de sucesso nos tratamentos tem melhorado de ano para ano.
"Uma revolução"
As metástases significam 90% das causas de morte por cancro e o oncologista lamenta que, hoje em dia, a resposta da comunidade médica nestes casos passe muito pelos cuidados paliativos.
Esta técnica de radioterapia de dose única, disponível para tratamento no final do primeiro trimestre de 2012, irá permitir tratar muitos dos casos de cancro com metástases, sobretudo os menos disseminados.
Trata-se de uma radioterapia por imagem guiada, na qual se realiza uma TAC e o tratamento em simultâneo, que exige um elevado nível de precisão para que a dose única seja aplicada no local adequado e se torne suficiente.
"Já testámos este equipamento e esta técnica na Universidade de Pisa, em Itália, e os resultados foram surpreendentes. Tem é de ser administrada uma dose suficientemente forte para erradicar o tumor. E já provámos que funciona em qualquer tipo de cancro, mesmo num dos mais resistentes à quimio ou radioterapia, como o do rim", explicou Carlo Greco, fazendo referência a um estudo realizado ao cancro dos rins, com uma taxa de sucesso de 80%.
"É uma revolução", resume, assegurando que é indolor, elimina a toxicidade e permite fazer o tratamento "de olhos fechados" demorando menos de um quarto do tempo do que as sessões convencionais de radioterapia. Isto significa que, em 10 minutos, consegue-se o mesmo do que com a cirurgia, mas permitindo ao doente ir para casa de seguida e sem risco de morte.
"Medicina personalizada"
A vantagem, segundo o especialista, é que este método permite tratar várias lesões numa mesma e única sessão: "Podemos finalmente oferecer aos doentes metastáticos, mais do que uma esperança, uma realidade - sem dor e sem invasão".
Contudo, a radioterapia de dose simples requer uma equipa estruturada e investigação em patologia molecular, para que se estude cada caso e a dose certa a dar em cada tipo de cancro. "Isto significa uma medicina personalizada. Seleccionamos a dose conforme a histologia e a genética de cada pessoa. Só pode ser executado por uma equipa multidisciplinar", comenta.
Carlo Greco espera vir a receber doentes de hospitais portugueses e também de qualquer país da Europa ou do mundo: "Queremos abrir as portas a todos".
O responsável lembra que a administração da Fundação tem estado a trabalhar com o Governo português e que as negociações futuras serão feitas com cada um dos hospitais que manifestem interesse. Por agora, a Fundação só recebe doentes particulares, tendo já acordos com oito instituições com seguros de saúde.
Apesar de nunca revelar o custo do equipamento para este tipo de radioterapia, Carlo Greco garante que o tratamento sai menos caro do que a radioterapia convencional. "O custo para o sistema de saúde é muito mais baixo. A máquina vive por 10 anos e trata quatro vezes mais doentes", sublinha.
