
MENAHEM KAHANA/AFP
Bento XVI, que anunciou esta segunda-feira a sua resignação, deixa uma lembrança de um Papa que procurou clarificar a mensagem de uma Igreja envolta em vários escândalos, entre os quais o da pedofilia, tentando também reconciliar a fé e a razão num mundo moderno.
Este eminente professor alemão de teologia, que nunca suscitou o fervor de que beneficiou o seu antecessor, João Paulo II, mas que suscitou um respeito crescente ao longo dos anos, tornou-se Papa a 19 de abril de 2005, com 78 anos, após liderar ao longo de um quarto de século a Congregação para a Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício.
No seu papado foi confrontado com a mais profunda crise da Igreja contemporânea: a da revelação em massa, em vários países da Europa e na América do Norte, de abusos sexuais cometidos sobre crianças por membros do clero, agravados pelo silêncio da hierarquia.
Condenando duramente estes "pecados" e ordenando a tolerância zero, Bento XVI pediu explicitamente "perdão" às vítimas em junho de 2010.
Em 2012, foi confrontado no interior do Vaticano com um escândalo de fuga de documentos confidenciais que levou à detenção do seu próprio mordomo, Paolo Gabriele: um sintoma do descontentamento e das divisões na Cúria.
Nas centenas de homilias e discursos, Bento XVI desenvolveu o conteúdo da fé e sucessivamente apelou à conversão e ao regresso ao essencial da mensagem de Jesus.
Se recusou toda a evolução da Igreja sobre as questões morais (aborto, eutanásia, família, homossexualidade), este papa conservador, conhecedor de dois mil anos de cristianismo, recusando a ruptura com a tradição, foi o primeiro a admitir a utilização do preservativo. em casos muito limitados, para evitar a contaminação pela sida.
Nascido a 16 de abril de 1927 em Maktl-am-Inn numa família modesta da muito católica Baviera, entrou em 1939 para o seminário menor. No mesmo ano é inscrito nas Juventudes Hitlerianas, uma inscrição tornada obrigatória por decreto.
O Papa, que denuncou a "desumanidade" do regime nazi, sublinhou que este compromisso aconteceu contra a sua vontade.
Odenado padre em 1951, Joseph Ratzinger apenas conheceu a verdadeira experiência pastoral entre 1977 e 1981 em Munique. Ensinou teologia em várias universidades alemãs e participou como especialista no Concílio Vaticano II (1962-1965). Figurava entre os peritos mais liberais.
Depois do conclave de 1978, aproxima-se do futuro Papa João Paulo II que o chama, em novembro de 1981, para dirigir a Congregação para a Doutrina da Fé.
Bento XVI procurou trazer de volta os integristas ao seio da Igreja, desde que aceitassem o Concílio. Apelou aos europeus para que não rejeitem as suas "raízes cristãs". Trabalhou na "nova evangelização" mas também exprimiu o seu respeito pelos não crentes.
Bento XVI espoletou várias polémicas. A primeira rebentou em setembro de 2006 e opô-lo ao mundo muçulmano depois do discurso sobre as relações entre a razão e fé, em Ratisbona.
Em janeiro de 2009, a sua decisão de suspender a excomunhão de quatro bispos integristas um dos quais, o britânico Richard Williamson, um negacionista, gerou um clamor de críticas. Mas multiplicou os gestos de respeito para com os muçulmanos e sobretudo para os judeus.
